Quando meninos viram homens

Nasci em uma família rubro-negra. Todos os 10 moradores de minha casa eram flamenguistas. Não tinha como eu não ser também, principalmente tendo um avô e um pai como os meus, cujo assunto preferido era futebol. Por isso, a rotina dominical era religiosamente seguida, fizesse chuva ou sol: à tardinha, todos os homens da minha casa vestiam o manto menos furados e iam ao Maracanã.

E eu me tornei um homem aos 7 anos de idade, no Brasileiro de 1981, mas precisamente no dia 5 de abril, no jogo Flamengo x Colorado. Ainda lembro o impacto que me causou a subida do túnel da arquibancada do Maracanã. A cada passo o barulho do Estádio ia aumentando e boquiaberto observei a imensidão do evento. Avistar a torcida e aquele gramado verde foi algo deslumbrante.

Lembro de minha inquietação ao notar que só ouvia o som do estádio e da minha insistência em perguntar: “Vô, cadê o narrador?” Passou um helicóptero: “Vô, cadê o narrador?” O jogo começou: “Vô, cadê o narrador?” (E pensar que hoje em dia mando o Galvão Bueno calar a boca!).
O jogo em si foi marcante também. Para quem não sabe, o Colorado rivalizava com o Atlético-PR e Coritiba no estado paranaense (em 1989, ele e o Pinheiros juntaram forças e formaram uma nova agremiação: o Paraná Clube). Vinte dias antes desse confronto no Maracanã, o Flamengo levou uma goleada de 4 x 0 no Couto Pereira. Além do caráter de revanche, a partida era decisiva para avançar de fase no campeonato brasileiro. Mais de sessenta mil pessoas foram ver esse encontro e, entre esses milhares, “euzinho da silva”.

O jogo foi dificílimo. Apesar do timaço do Flamengo jogar em casa, a equipe Colorada conseguia resistir às investidas rubro-negras e aplicava alguns sustos. Já no fim do primeiro tempo, silenciou a torcida ao fazer o seu gol, após um chute cruzado da direita, onde o atacante Aladim só teve o trabalho de escorar para o gol vazio.
Que sensação ruim… O primeiro gol que vi no Maracanã não foi do Flamengo. Meu avô aproveitou para tirar onda comigo. Chamava-me de pé frio e que não fez bem em ter me levado para um jogo tão importante. Pior que na mente de uma criança, isso soa como verdade. Veio o intervalo e meu avô já estava “de bem” comigo. Como era gostoso aquele picolé escorrendo pela mão!
Começa o segundo tempo, sorvete limpo no short e olhos vidrados no jogo. Nunca fui daquele tipo de criança em que o jogo corre solto e a desgraçada tá olhando pro céu, pro placar ou pra criança do lado. Ainda mais com o time perdendo e eu sendo o responsável pela derrota. O jogo transcorria tenso e a pressão empregada pelo Mengo estava implacável.

flacolorado

Perdíamos vários gols, e agonia ia aumentando… Mas quem tem Zico tem tudo! O Galinho estava encapetado e comandou a virada. Dois golaços em dois minutos, já no período final da partida.

Voltei em estado de euforia para casa. Caramba, ir ao maior estádio do mundo, ver o Flamengo vencer e ainda com gols do seu maior ídolo, não tem preço! No dia seguinte na escola, a marra tradicional de todo flamenguista estava incorporada em mim. Eu era o único da minha classe que já tinha ido ao Maraca. E os amiguinhos tiveram que aturar as minhas narrativas detalhadas do espetáculo que eu presenciara. Coitados…
Nesse mesmo ano, fui várias vezes ao Maracanã, inclusive no primeiro jogo da final da Libertadores, contra o Cobreloa (o jogo mais importante que vi no Maracanã, apesar de, na época, não ter noção do que a Libertadores significava). Nesse ano, o fanatismo já havia tomado conta de mim. A prova é que, semanas depois, na famosa final do “Ladrilheiro”, me recusei a ir a 1ª Comunhão de minha prima para poder ficar em casa, ouvindo a Decisão pelo rádio. Era a primeira vez que ficava em casa sozinho. Na semana seguinte, eu era um dos milhões de brasileiros acordados na madrugada para ver o Flamengo conquistar o Mundo, mas aí conto numa outra oportunidade.

petitHoje fiz questão de compartilhar com vocês o dia em que me tornei um homem de verdade. O dia que conheci a casa da Nação Rubro-negra e que nela o Mengão se impôs. Obrigado aos homens da minha casa (avô, pai e tios) que me tornaram flamenguista. Obrigado, Zico, por ter feito esse dia ainda mais perfeito. Obrigado, Flamengo. por ser tão maravilhoso! Obrigado a vocês que conseguiram chegar até o final do texto! Tomara que de alguma forma isso remeta a lembranças que, assim como a minha, nunca sairão de suas mentes.

 

Flamengo 2 x 1 Colorado
5 de abril de 1981 – Campeonato Brasileiro
Estádio do Maracanã – Rio de Janeiro
Público: 61.749
Árbitro: Márcio Campos Sales
Flamengo: Raul, Carlos Alberto (Fumanchu), Luís Pereira, Marinho, Júnior, Vítor, Adílio, Zico, Tita, Nunes, Ronaldo. Técnico: Modesto Bria.
Colorado: Joel Mendes, Sídnei, Marião, Caxias, Ivo, Newton (Sartóri), Peres, Marinho, Buião, Jorge Nobre, Aladim. Técnico: Geraldino Damasceno.
Gols: Aladim, aos 39 do 1º tempo. Zico aos 33 e 35 do 2º tempo.

 

Marcelo Espíndola
@CeloEspindola

Wallpaper Flamengo 1981

Para celebrar o 31º aniversário do nosso título mais importante eu fiz esse humilde presente para a Nação Rubro-Negra. Agora o seu computador pode celebrar o aniversário daquele título inesquecível. Para fazer o download clique na imagem para ver o papel de parede em alta resolução. Clique na imagem com o botão direito e salve no seu computador.

E viva o Clube de Regatas do Flamengo!!!

wallpaper_flamengo_1981

Saudações Rubro-Negras!

Vestiu rubro-negro não tem pra ninguém: Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda, o camisa 10 do bandolim

Hamilton de Holanda, o camisa 10 do bandolim

O menino Hamilton de Holanda Vasconcelos Neto teve um natal perfeito em 1981. O Flamengo já havia lhe dado de presente o topo do mundo. E das mãos do seu avô (o mesmo de quem herdou o nome), Hamilton ganhou o seu primeiro bandolim, aos 6 anos de idade. Um ano antes ele já tinha feito o seu primeiro concerto no CLube do Choro de Brasília. Nascido no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, cresceu em Brasília, onde apesar da ausência de professores de bandolim na época, aperfeiçoou sua técnica tocando vários instrumentos. O seu talento é tão grande que não demora para ele aparecer na TV ao lado do seu irmão Fernando César.

Com dez anos de idade Hamilton já compôs o seu primeiro choro, “Chorinho pra Pernambuco”. Dez anos mais tarde já tinha conhecido craques do choro como Altamiro Carrilho e tocado com mestres como Raphael Rabelo, de quem seguiu os passos de transcender os limites do choro. Sua vontade de experimentar se nota não só no repertório, mas até mesmo em seu instrumento. Pioneiro, em 2000 pediu para que seu luthier lhe fizesse um bandolim de 10 cordas. Virtuoso, brilhante e único, como um camisa 10 do bandolim.

Foi tocando ao lado do seu irmão no grupo Dois de Ouro que gravou o choro “Rubro-Negro”, de sua autoria. A faixa 10 do álbum “Dois de Ouro” é, obviamente, uma música em homenagem ao Flamengo. Talvez mais do que isso, seja uma homenagem ao torcedor rubro-negro. Desse orgulho de ser rubro-negro que todos nós gostamos de cantar. Segundo Hamilton é um “samba-choro com uma pegada bem carioca”. A música começa com um batuque digno de arquibancada, seguido por seu bandolim que invade o campo com alegria de um lateral sambista. A bela melodia desenha a jogada que termina com a chegada do violão de sete cordas. Um volante, daqueles que desfilam classe, e que quase não se fabricam mais. E o bandolim/bola vai passando de pé em pé. No ar, um aroma de Canal 100, com suas jogadas memoráveis, dribles irreverentes e tabelas impossíveis.

Um toque mágico, a música ralentiza e vemos um camisa 10 matando a bola no peito, e colocando-a amávelmente no chão, com delicadeza e elegância – maestro do tempo e do espaço. Um belo lançamento que aciona um ponta esquerda que, com seus movimentos insinuantes, aciona o camisa 9 que, com um pequeno movimento manda a bola morrer dentro do barbante. Se escuta então o grito da cuíca anunciando mais um gol rubro-negro. E estas melodias/jogadas se sucedem, se repetem inevitáveis, reinventando-se na forma de jogar. Só muda a trajetória, o último toque, a parábola, o farfalhar da bola à rede, cúmplice dos mestres do improviso. Se consuma a goleada, nos repetidos silêncios que antecedem os gritos de gol. E da goleada surge a festa da arquibancada, da geral, do time. Por um instante tudo aquilo é uma coisa só: o Flamengo. Até o apito do juiz e os aplausos finais.

Não é de estranhar que esse ano Hamilton, tenha sido chamado para inaugurar o cidade cultural do RIO 2016 em Londres. Afinal o camisa 10 do bandolim já é um embaixador da música brasileira no exterior. Hoje ele toca pelo mundo inteiro, com a alegria de um menino que corre atrás da bola…

ADTRN: Você compôs o samba-choro “Rubro-Negro”. O batuque das arquibancadas da Nação Rubro-Negra te inspirarou?

Hamilton de Holanda: Com certeza me inspiram. Principalmente quando temos chance de ser campeões. Não vou muito ao estádio, prefiro ver o jogo em casa. Mas quando vou, volto com a sensação de sempre querer voltar. Não tem nada igual à paixão da torcida do Mengão!

ADTRN: Desde que Bonfiglio de Oliveira compôs “Flamengo” em 1911, inúmeros artistas homenagearam o clube. Com qual deles você gostaria de fazer uma tabelinha musical?

Hamilton de Holanda: Com Lamartine Babo.

ADTRN: De todas as músicas rubro-negras qual a tua preferida? Por que?

Hamilton de Holanda: Samba rubro-negro. Junto com Coisinha do pai, essa foi a primeira música que cantei na vida, com meus 3/4 anos de idade. “Flamengo joga amanhã, eu vou pra lá, vai haver mais um baile, no Maracanã…”

ADTRN: Em sua gravação do clássico “1×0″ do Pixinguinha você usa “Brasileirinho” do rubro-negro Waldir Azevedo como tema incidental. Como se a gente fosse mais brasileiro gritando gol. Que gol do Flamengo você gostaria de reviver com uma música?

Hamilton de Holanda: O segundo gol do Nunes em 81 (terceiro do Flamengo), eu era muito pequeno, mas me lembro de assistir na madrugada o Mengão campeão do mundo no Japão.

ADTRN: Você além de bandolinista virtuoso é um excelente compositor. Não usa a camisa 10, mas usa um bandolim de 10 cordas. Que jogador rubro-negro você diria: esse foi (ou é) um grande artista?

Hamilton de Holanda: Júnior e Zico. Eles foram artistas da bola, com aquele poder de encantamento que nos deixa sem ar.

ADTRN: Por último gostaria de agradecer em nome de todos do blog e pedir que você faça uma pergunta ao mais musical dos jogadores rubro-negros. Um pagodeiro de primeira, que vendeu muitíssimos discos com Povo Feliz (Voa canarinho), em 1982. O maestro Júnior. A bola está contigo, Hamilton.

Hamilton de Holanda: Júnior, sei que a resposta é difícil, mas não posso deixar de perguntar : um gol ou um samba ?

Com vocês, o samba-choro de Hamilton de Holanda, um rubro-negro.


Gostou? Que tal ouvir mais? É fácil. Contemporâneo e generoso, Hamilton que disponibiliza em sua página ( http://www.hamiltondeholanda.com ) toda sua vasta discografia, vários downloads e até partituras. Golaço, Hamilton!!!

Saudações Rubro-negras!

Vestiu Rubro-Negro Não Tem Pra Ninguém: Lico

Quando o Flamengo pisou o gramado do maior estádio do mundo no dia 8 de novembro de 1981, todos ficaram surpresos com a presença daquele jogador de pernas compridas e passo cadenciado. Era Lico, em sua primeira aparição como titular rubro-negro no Maracanã, com a camisa 11 habitualmente vestida por Baroninho. Lico havia passado discretamente pela Gávea no ano anterior, comprado ao Joinville, mesmo time para o qual foi emprestado como forma de quitar parte de seu passe. Voltou ao Rio discretamente após o campeonato brasileiro de 1981 e havia sido utilizado poucas vezes, sempre no segundo tempo, até ganhar a titularidade contra o Botafogo, artimanha concebida por Carpegiani na véspera.

Mais surpreendente foi vê-lo pela ponta direita, com Tita deslocado para a esquerda. E o Flamengou goleou por 6×0 com Lico tocando, driblando, tabelando e fazendo gol como se o Flamengo estivesse esperando por ele para se tornar campeão de tudo. Lico mora atualmente em Imbituba, sua terra natal, onde coordena uma escolinha de futebol. Contrariado com o desempenho do Flamengo diante do Internacional (“Às vezes nós até jogávamos mal, mas nunca com apatia, ninguém pode ser apático defendendo o Flamengo”), o camisa 11 campeão do mundo respondeu a 5 perguntas do ACIMA DE TUDO RUBRONEGRO.

ADTRN: Lico, a primeira pergunta foi feita por nosso entrevistado anterior, Zico, que disse o seguinte: “Gostaria de saber do Lico em qual posição no futebol ele gostava de jogar e se sentia melhor, e aproveito para enviar um grande abraço para ele e toda a família.”

Lico: É uma honra ser entrevistado para falar do Flamengo, ainda mais com uma pergunta feita pelo Zico. Um abraço para ele e para toda a família também. Eu joguei em todas as posições do meio para a frente, e no Flamengo joguei mais como falso ponta-esquerda, fechando o quadrado no meio de campo. Mas antes de ir para o Flamengo, eum jogava na meia-direita pelo Joinville, com a camisa 8. No primeiro dia de Gávea, o time principal estava na Europa e o Zico estava no Brasil, voltando de uma contusão. Eu joguei um coletivo contra os juniores, na meia direita, e o Zico na meia esquerda. Nunca haviámos jogado juntos, mas o entrosamento foi imediato e Zico me elogiou muito. Mais tarde, quando fui titular, a meia direita era do Adilio e eu fui para a ponta, mas também com a missão de fechar o meio. Então é isso, a minha posição preferida era a meia direita, ainda mais se fosse ao lado do Zico. Mas naquele Flamengo, qualquer posição servia, só tinha craque e era fácil jogar.

ADTRN: Você teve participação direta no segundo gol em Tóquio. Como foi aquele lance?

Lico: Tem uma coisa curiosa nesse gol. Era uma falta frontal, e o Zico costumava cobrar por cima da barreira. Mas o piso em Tóquio era muito duro, e mesmo sem combinar, achei que ele podia cobrar rasteiro para dificultar o goleiro e me preparei para o rebote. Depois do jogo o Zico disse que pensou mesmo isso, em chutar para a bola quicar antes do goleiro. Foi o que aconteceu, o goleiro deu rebote, até foi um rebote curto, mas eu estava em cima do lance. Toquei na bola de leve, achando que o goleiro não ia se recuperar, mas ele esticou o braço e bateu na bola. Eu ia voltar no lance mas vi o Adilio chegando e aí só tirei o corpo e assisti o gol de camarote. Eu sempre prestei atenção nos rebotes, e há pouco tempo, em um jogo do Fla Master em Joinville, o Nunes bateu uma falta e mesmo com meu joelho estourado eu cheguei em cima e marquei o gol.

ADTRN: Hoje você trabalha com formação de jogadores. Como você vê a base do Flamengo?

Lico: Bom, estou longe e não sei os detalhes, mas acho que os garotos da base deviam ser preparados não para se tornarem jogadores de futebol, mas jogadores do Flamengo, o que é muito diferente. Não adianta só ter bola, a camisa do Flamengo pesa. Então eles deviam esquecer um pouco os carrões, as festas, e se dedicarem a entrar para a história do Flamengo. O resto vem naturalmente, porque quem vence com a camisa do Flamengo, vence qualquer desafio. E também devem ser lembrados sempre que o futebol é um jogo coletivo, o importante é o time vencer. Uma vitória vale mais do que qualquer firula.

ADTRN: Você foi campeão de tudo pelo Flamengo. Mesmo com tantas vitórias, há alguma derrota que, se pudesse, você voltaria no tempo para evitá-la?

Lico: Pode até parecer ingratidão diante de tudo o que conquistamos, mas há sim. Se eu pudesse, mudaria o resultado do jogo contra o Peñarol pela Libertadores de 1982 no Maracanã. Precisávamos da vitória para ir à final. Jogamos muito bem, criamos várias chances de gol, dominamos o jogo todo, mas a bola não entrou. Em uma única escapada, o Peñarol teve uma falta e o Jair, que jogou no Inter, acertou o ângulo. A torcida reconheceu nosso esforço e aplaudiu, foi bonito, mas não engolimos aquela derrota. Tenho certeza que nós iríamos para o bicampeonato mundial se passássemos ali. Ficamos abatidos. Nós sentíamos a derrota tanto quanto os torcedores. Não sei se hoje é assim. Se eu pudesse mudar um resultado na minha vida, seria aquele.

ADTRN: Lico, nós agradecemos o seu carinho. Foi uma prazer entrevistá-lo. E assim como o Zico deixou uma pergunta para você, por favor, faça uma pergunta para um ex-jogador do Flamengo.

Lico: Eu que agradeço e deixo um abraço para todos os torcedores rubro-negros. A minha pergunta é para um dos jogadores mais completos que vi atuar e que, além de ser um jogador extra-série, era um camarada que estava sempre de alto astral, de bem com a vida. Estou falando do Leandro. Ele se consagrou como lateral, mais tarde jogou como zagueiro, mas quando eu não pude jogar a final da Libertadores, o Carpegiani puxou o Leandro para o meio e ele foi simplesmente perfeito. A pergunta é parecida com a que o Zico fez pra mim. Leandro, se você fosse jogar no futebol de hoje, jogaria em qual posição? Um grande abraço!

Vestiu rubro-negro não tem pra ninguém: Zico

O Acima de Tudo Rubronegro tem a honra de inaugurar uma série de
pequenas entrevistas com personagens fundamentais do Rubronegrismo.
Serão sempre quatro perguntas feitas por nós e uma última que o
próprio entrevistado fará ao entrevistado seguinte.

Na estréia de gala, pisa o tapete vermelho Arthur Antunes Coimbra,
Arthurzico nas ruas de Quintino, Zico no Maior Estádio do Mundo,
Zicão-Zicaço no vozeirão de Jorge Curi, Rei de Todos Nós.
Obrigado, Zico. Por tudo.

O camisa 10 da Gávea. Ilustração: Gustavo Berocan

ADTRN: Como torcedor do Flamengo, sabemos que seu ídolo era o Dida.
Mas qual o momento mais marcante que você viveu como torcedor?

Zico: Foi no campeonato carioca de 1963, quando Fla e Flu empataram
em 0×0 e esse resultado deu o título ao Fla. O público de 177 mil
pagantes é recorde até hoje entre clubes e foi uma loucura ver o
Maraca vibrando em vermelho e preto.Tinha 10 anos e estava com meus
irmãos Edu e Tunico na tribuna. Meu irmao Antunes estava na
arquibancada.

ADTRN: Ultimamente você mostrou em programas de televisão o Manto
Sagrado usado em Tóquio. Quais outras camisas você guardou e qual você
acha mais bonita, já que jogou com vários modelos?

Zico: Tenho várias camisas, até do meu tempo de juvenil. Acho mais
bonita a tradicional, com listras pretas e vermelhas menores.

ADTRN: Quando você foi para a Itália, continuou ligado emocionalmente
ao clube? Procurava saber dos resultados?

Zico: Acompanhava, claro, e tinha um canal (Rettequatro) que passava
alguns jogos direto.

ADTRN: Das músicas que a torcida cantava na arquibancada, qual sua favorita?
Zico: Aquela que começa com Oh meu MENGÃO, eu gosto de você, quero
cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro…

ADTRN: No livro “Zico conta a sua história” você disse que com a
chegada do Lico o time de 1981 ficou completo. Que pergunta você faria
ao Lico?

Zico: Gostaria de saber do Lico em qual posição no futebol ele
gostava de jogar e se sentia melhor e aproveito para enviar um grande
abraço para ele e toda a família.

28 Dias Sem Flamengo – Sete de Setenta e Oito – Dias 06 e 07

Desgraçado diário,

Hoje é domingo dia 29 de abril. Ando pensando muito no tempo. No tempo que a diretoria do Flamengo perde a cada ação, a cada declaração, a cada segundo. No paso atrás no tempo que cada ação dessas significa. Nos timelapses que podia estar fazendo enquanto escrevo sobre Patética Amadora e sua turma. No tempo que falta pros livros sobre o Flamengo chegarem às minhas mãos. No tempo que dedico a esse blog e ao Flamengo.

Também penso: para que escrever sobre o dia de ontem se hoje é um domingo. Domingo é dia de ver o Flamengo. Domingo, 29 de abril. Daí resolvi fazer uma viagem no tempo. O que aconteceu de relevante na história do Flamengo num dia 29 de abril? Para estas horas é bacana fazer uma busca na Flapédia, no Flaestatística e no Flamuseu.

Eu sou um verdadeiro desastre para datas. Sou capaz de esquecer que esse 29 de abril é também aniversário da minha irmã. Acho que é uma maldição por eu ter nascido no dia 07/07/1977 (aniversário do primeiro Fla-Flu). Por eu ter essa data fácil acho difícil lembrar qualquer outra. Ainda bem que para isso existem os livros, os historiadores, as hemerotecas, a Wikipédia, a Flapédia, os blogs como o Flamuseu…

Daí você descobre que é aniversário do Fábio Luciano e da nadadora Joanna Maranhão. Até o calendário está me provocando? Aliás parabéns ao time de natação campeão do Troféu Maria Lenk. Acho injusto torcer contra gente que rala pelas cores do time. Parabéns até à vereadora Patrícia Amorim por alcançar esse objetivo. Gostei da declaração dela. Ela tem toda razão quando diz que não acreditamos no trabalho dela. Continuo sem acreditar. Aliás é tanta besteira que leio sobre o Flamengo que prefiro não acreditar em nada…

Prefiro sonhar com o dia que o Maria Lenk será nosso. Não o troféu, mas o complexo de piscinas onde treina o César Cielo. Quem sabe assim podemos destruir as piscinas da Gávea e contruir outra coisa lá. Mas isso é um sonho, a realidade são essas notícias surrealista que saem mais rápidas que o twitter. Nem perdo o tempo de listar nada hoje, estou de folga de baboseira. De bom só a goleada da molecada sobre o Nova Iguaçu: 11×0. Rola até um arrepio só de ver o manto sagrado em campo. E o Jean Chera calou minha boca com aquele golaço de falta. Boa, moleque. Continue assim…

Fuçando mais sobre o 29 de abril descobri que hoje é o aniversário da nossa primeira derrota pro Vasco. Em teoria seria o primeiro jogo entre as equipes mas a Flaestatística contesta isso. Para eles o Flamengo teria vencido o primeiro jogo entre as equipes no dia. É bacana que até nisso exista rivalidade. Infelizmente, na rua Payssandu não existe lembrança daquele campo. Pelo menos não encontrei nada. Também acho que não existe nada no Bar Lamas, no largo do Machado, onde fundaram o Flamengo.

C.R. Flamengo 1 x 3 Vasco da Gama
Campeonato Carioca – 1º Turno
29/04/1924 – Estádio: Rua Paysandu – Rio de Janeiro
Time: Ibere, Penaforte, Telefone, Japonês, Odilon, Dino, Orestes, Sidney Pullen, Nono, Junqueira e Benevenuto.
Gol: Junqueira.

C.R. Flamengo 1 x 0 Vasco da Gama
Torneio Início
26/03/1922 – Estadio: Laranjeiras – Rio de Janeiro
Time: Kuntz, Telefone, Penaforte, Rodrigo, Sidney Pullen, Dino, Galvão Bueno, Candiota, Nonô, Segreto e Orlando.
Gol: Segreto

90 anos vira notícia que o Galvão Bueno se declarou rubronegro. Grandes merdas! O verdadeiro Galvão Bueno jogou no Flamengo nos anos 20 e destroçou o bacalhau por primeira vez! Outro dia foi aniversário da pior derrota que já sofremos pro Vasco também. Imagina o que devem ter sofrido Floriano, Leo, Helcio, Flavio Costa, Penha, Fonseca, Darci, Adelino, Vicentino, Elói, Nelson, Alvaro e Cassio.

C.R. Flamengo 0 x 7 Vasco da Gama
Campeonato Carioca – 1º Turno
26/04/1931 – Estádio: São Januário – Rio de Janeiro
Time: Floriano, Leo, Helcio, Flavio Costa, Penha(Fonseca), Darci, Adelino, Vicentino, Elói(Nelson), Alvaro e Cassio.

Será que sentiram a mesma coisa que Felipe, Leonardo Moura, Marcos González, Welinton, Junior Cesar, Luiz Antonio Renato, Muralha, Bottinelli, Kléberson, Negueba, Ronaldinho Gaúcho, Vagner Love e Deivid no domingo passado? Não sei, mas sei que já comemoramos vitórias nos 29 de abril. Por exemplo wm 1936 goleamos por 9 x 2 o poderoso Villa Joppert. Num dia 29 de abril também celebramos um bicampeonato carioca invicto. Com dois gols de Zico sobre o Botafogo. Aliás se tivéssemos repetido a campanha do ano passado hoje era dia de ser campeão invicto outra vez. Mas temos que ver um clássico sem cor pela tv. Nada, prefiro voltar a 1984 e rever Flamengo vencendo Corinthians num 29 de abril. Foi o ano que eu mudei pro Rio de Janeiro. Onde será que eu estava esse dia?

Imagina Zico e Gera…

Vendo essas velharias reparei que no passado dia 16 de abril Geraldo faria 58 anos. Leia aqui (em espanhol) uma história em quadrinhos que fiz em homenagem ao Geraldo. É curioso que o Vasco também esteja ali presente. Uma vitória e uma derrota. Recomendo ler escutando essa pérola do Arnaud Antunes (parceiro do vascaino Chico Anísio) que me inspirou muito para desenhar a história do Geraldo. Imagina Zico e Gera…

Terminou de ler? Curtiu? Escreva nos comentários, divulgue para outros rubro negros. Você tem algum desenho sobre o mengão, alguma história em quadrinho? Manda pra gente um email.

Boa dominguêra pra vocês!

PS: Aos rubronegros amantes de sua história não percam esse evento do Museu do Flamengo na sede da gávea. Dia 03 de maio. com lançamento da marca do centenário.

Nota: Você está lendo meu diário de abistinência de Flamengo no futebol. Para ler os dias anteriores siga o marcador 28 Dias Sem Flamengo ou visite o índice em ordem cronológica.

Gigante adormecido

Um dia após a nossa lamentável eliminação para o Vasco, como é feriado de São Jorge aqui no Rio de Janeiro, tirei o dia para dar aquela faxina na casa. Não queria saber de noticiário esportivo, nem mesmo me envolver em discussões fervorosas sobre o futuro rubronegro. Resolvi iniciar a arrumação da bagunça por onde guardo revistas, recortes e jornais sobre o Flamengo. Meu projeto de arrumação acabou ali mesmo. Comecei a folhear os jornais e fiquei relembrando notícias e vitórias memoráveis. A raiva (sempre passageira) que tenho do Clube que amo nos momentos de derrota, esfarelava-se a cada notícia lida. Cara, como é bom ser Flamengo!

Mas ao me deparar com o jornal O Globo do dia 07 de dezembro de 1981, fiquei radiante. Era o dia seguinte da decisão do Estadual daquele ano. O famoso jogo do Ladrilheiro, onde sapecamos o Vasco.Trinta anos depois, vejam como as segundas-feiras são tristemente opostas. No jornal, a alegria do título e de ter derrotado o seu maior rival. Na realidade de hoje, a tristeza de ter no time um bando de pernas de pau, comandados por um técnico bisonho e uma Presidenta patética. Nesse momento fiquei triste de novo.

Mas aí veio a página seguinte que fez meus olhos lacrimejarem. Uma notícia sobre a preparação do Liverpool para a final do Mundial Interclubes, seis dias depois. Embarquei na notícia e comecei a viver a semana daquela decisão. Estava a poucos dias do jogo mais importante da história do Flamengo. Coração deu uma acelerada e me dei conta que estava em 2012. E pensei em como seria bom que algo parecido acontecesse com a gente de novo.

Esse breve texto não tem nada a ver com nada, e talvez nem deva ser oportuno… Deu vontade de escrever, só para tirar um pouco da angústia do meu peito. Para aqueles que não entendem meu lado corneta e mal humorado com o time atual, esses recortes talvez dêem a dimensão do que espero sempre do nosso clube. Desculpe a chatice, mas já fomos grandes. E quando falo grande, digo gigaaaaaante. E um gigante não mata sua fome com migalhas e nem pode encolher ano após ano. Temos que fazer algo, por favor! Está na hora de despertá-lo.

O nome (e o sobrenome) do inimigo

A (falta de) gestão de Patricia Amorim como presidente do Flamengo é um elogio ao absurdo. Patricia foi nadadora de feitos medianos e é vereadora. Como bem diz um amigo, o vereador é o contínuo da política. Eis Patricia Amorim: nadadora de uma Olimpíada sem classificar-se às finais e garota de recados na vida pública. Elegeu-se presidente de uma Nação.

Não podia mesmo dar certo.


No primeiro ano, Patricia viu o Flamengo ganhar as páginas policiais, fez o time chegar atrasado a um jogo decisivo de Libertadores porque queria um lugar no ônibus e mostrou-se perdida diante do Flamengo do futebol, um tanto maior do que aquele das piscinas. Perdida: semeou a discórdia entre Braz e Andrade no primeiro semestre, trouxe Zico no segundo. Trouxe para traí-lo, expondo o ídolo maior ao escárnio em praça pública. O Flamengo flertou com a segunda divisão.

No segundo ano, Patricia usou de um dinheiro que o Flamengo não tinha para contratar um ícone em decadência e entregou o futebol, de porteiras fechadas, a Luxemburgo. Venceu campeonatos pequenos, a Copa São Paulo e o campeonato estadual. Aproveitou o brilhareco e saiu em todas as fotos. Mas deixou o clube à deriva, sem patrocínio, sem lenço, sem documento.

No terceiro ano, Patricia demitiu Luxemburgo horas depois de garantir ao vivo na Rádio Tupi que o técnico seria mantido, só mais um ato da crise iniciada antes mesmo de o ano futebolístico começar, feito notável até mesmo para uma ignorante em futebol como ela. Tentou apagar a fogueira da crise com gasolina: contratou o abominável Joel Santana que abandonara covardemente o Flamengo em 2008. O time foi eliminado de modo constrangedor na primeira fase da Libertadores e não disputou sequer uma final de turno no estadual.

Ignoremos os detalhes de histórias como fazer do lamentável e omisso Luiz Augusto Veloso diretor de futebol, de escrever cartas abertas dizendo-se boa presidente porque os parquinhos estão cheirando à tinta e de deixar claro que o presidente de fato é o seu marido, torcedor do Fluminense. Ignoremos, porque não precisamos dos detalhes para entender que Patricia Amorim vem esbulhando o Flamengo nos últimos três anos.

Essa derrota para o Vasco ocorrida há pouco não é nada perto de todas as demais derrotas impostas ao Flamengo por Patricia Amorim e sua trupe. Aliás, vencer o estadual seria fazer uma cirurgia plástica em paciente com metástase.

A derrota no estadual será assim combatida por Patricia Amorim: demitirá Joel Santana (não é mérito, posto que jamais deveria ter sido contratado) e desviará os tiros a ela endereçados a quem até merece ser atingido, mas merece menos.

Não esqueça, amigo rubro-negro, o nome do maior inimigo do Flamengo hoje.

É Patricia.

E o sobrenome é falta de vergonha na cara.

Só se for pelo Flamengo!

Ilustração: Gustavo Berocan

Ilustração: Gustavo Berocan

No post anterior gastei milhares de caracteres para no fim falar de um milagre. É obvio que eu tinha comido chocolate demais, estava empolgado com aqueles filminhos de Moisés e caí na besteira de usar esta palavra. Mas meu amigo Marcelo tem razão. Quem espera milagre é botafoguense. Diga não a Botafoguização do Flamengo. O rubro negro não espera, vai atrás, luta e consegue. E não adianta aparecer no twitter depois que tudo foi à merda e dizer: eu já sabia. Grande coisa, pode se dar um PHD em Sport Betting in Chaothic Environment. Quando presidente, diretoria, técnico e alguns jogadores são péssimos adivinhar um mau resultado não tem o menor mérito. É uma porcaria depender de outros e o time do Flamengo está nessa situação porque por várias vezes não esteve à altura da história do clube. Não teve ambição em Lanús quando começou ganhando e deixou empatar. Não teve categoria nem gás para pôr o Olímpia na roda no empate do Engenhão. Não teve raça nem um técnico com QI positivo quando perdeu para o Olímpia o Emelec fora de casa.

Ora, amigos. Esta noite o Flamengo só tem um resultado que lhe classifica. Vitória em casa e empate entre Olímpia e Emelec. Sinceramente, se o Flamengo não for capaz de ganhar em casa é melhor nem seguir na Libertadores. E até onde eu sei o jogo entre Olímpia e Emelc começa empatado e até que acabe um empate não é um resultado de outro mundo. Não é nada extraordinário, até porque o Olímpia já tomou uma surra em casa e porque o Emelec (graças à generosidade do Flamengo) ainda pode se classificar e jogará pra valer. O que pode ser pra nós a melhor definição do inferno? Ver um empate entre esses dois times ao mesmo tempo que o Flamengo é incapaz de conseguir uma vitória em casa diante do Lanús.

Por isso já acordei pensando na nossa história, cheia de grandes feitos e gente como Valido, Rondineli, Lico, Junior e tantos outros que derramaram sangue rubro negro por nossas vitórias. Voltando às presepadas de analogia religiosa… (Valha me Deus, presepada vem de presépio?) se existe uma Santíssima Trindade no Flamengo acredito que seja Zizinho (Pai) Zico (Filho) e Dida (Espírito Santo). Pois um vez esses figuras sagradas falaram entre si sobre um tema: raça. Zizinho era então treinador do Bangu e teria dado a Zico um conselho que anteriormente teria dado a Dida: essa galera gosta que a gente corra.

Esse é o espírito rubro negro por excelência. Não deixar de acreditar no poder das próprias pernas jamais. Por isso a idéia de torcer por outros times para conseguir uma classificação nos parece insuportável. O rubro negro não foge à luta nem com quarenta graus de febre, nem com os joelhos fudidos, nem com o supercílio aberto, nem com uma costela ou mandíbula quebrada. Flamengo até morrer, tá lembrado? E esse grande Dida que serviu de inspiração ao Zico curiosamente não tinha o menor interesse em ser jogador profissional. Sair da  sua Maceió natal pra quê? Pois ele tinha uma coisa bem clara na sua cabeça, esse sacrifício ele só faria com uma condição. Só se for pelo Flamengo. Por isso não pedimos milagre. Só queremos uma mudança de atitude e um treinador menos covarde.

Eu ja tinha feito uma playlist cornetando o nosso camisa dez. Parece que surtiu efeito, ele até marcou contra o Vasco. Agora escute essa playlist que fiz para você, rubro negro. Dez canções, em homenagem ao camisa dez Dida, sucessor de Zizinho e ídolo do Galinho. Essas canções além de serem infinitamente melhores que essas melodias mamonas que imperam nos estádios atualmente, são verdadeiros manuais de torcedor do Flamengo. “Um rubro negro ganhe ou não ganhe deve manter a devoção”. “Eu não perco nenhum jogo, seja de noite ou de dia”. “Pode chover, pode o sol me queimar, eu vou lá pra ver a Charanga do Jairo tocar”. “Se ganhar ou se perder sou doente meu irmão”. “Meu clube quando apanha: podia ser pior? Mas quando ele ganha: Mengo é o maior!”. “Flamengo, és uma religião que ensina o cidadão a amar o meu Brasil”, “Flamengo, tua glória é lutar”, “Se perde o Flamengo não queimo a bandeira, não rasgo a carteira porque sei perder, continuo a ser Flamengo, ser Flamengo é que dá pé”, “O time joga com raça, joga certo e não rebola”, “Flamengo até morrer eu sou.”

São mandamentos rubro negros tão contundentes que vários oportunistas, torcedores de outros times (como o vascaino Jamelão) cantaram as glórias do Flamengo para garantir seu êxito cerrto. Agora, escute e imagine a época das cancçõs, o primeiro tri na Gávea, o segundo tri no Maracanã recém inaugurado e as incontáveis maravilhas que saíam dos pés de Dida. Foram estas maravilhas que encantaram o menino Arhur de Antunes, que um dia aprenderia que glórias são conseguidas derramando sangue e suor. A nós, rubro negros, só nos resta acreditar. Não em milagres, mas no Flamengo. Quem for Flamengo me acompanhe.

Uma noite inesquecível com Zico no Maracanã

O que falar dele? Não há mais nada a se dizer do Deus da Nação. Qualquer adjetivo é pequeno demais para definir o Galinho, o meu maior ídolo. Com ele, minha infância e adolescência foram felizes demais. Zico também foi o único jogador que me fez chorar em estádios de futebol. Chorei muito na sua despedida (foram os 90 minutos mais tristes no Maracanã). Chorei na Copa de 86, não pela derrota do Brasil, mas pelo massacre da opinião publica sobre ele. Choro em todos os Jogos das Estrelas em que ele atua. E chorei muito em um jogo especial…

O ano era 1988 e defendíamos o título brasileiro. Vínhamos de uma vitória marcante por 5×1 no Brinco de Ouro da Princesa sobre o badaladíssimo Guarani do meio campo Neto (aquele mesmo do Corinthians). O adversário agora era o Criciúma no Maracanã. Mais um show da dupla Zico e Bebeto me deixava em êxtase na arquibancada. Em meados do segundo tempo, Zico faz um golaço daqueles que nunca sairiam da minha memória. Um chute forte que deixou o goleiro atônito. Esse gol, marcante por motivos óbvios, também me constrangeu muito. Na comemoração dei um tapa sem querer no torcedor ao lado, que fez o óculos do coitado voar uns 15 degraus da arquibancada. Passei o resto do jogo pedindo desculpas ao cidadão cegueta que levou uma porrada digna de Anselmo em Mario Soto.

A partir dali fui a praticamente todos os jogos em que Zico estava em campo. Sabia que o fim estava próximo e queria aproveitar cada momento que restava. Essa partida foi apenas uma das centenas que ele me fez feliz. Um dia espero conhecê-lo pessoalmente só para poder agradecer pelo que fez pela minha vida e por ser meu maior exemplo de caráter, dedicação e modelo de cidadão que norteará sempre a existência.

 

Flamengo 3 x 0 Criciúma 
28 de outubro de 1988 – Copa União 
Estádio do Maracanã 
Público: 42.058 
Árbitro: Dulcídio Vanderlei Boschilia 
Flamengo: Zé Carlos, Xande, Aldair, Dario Pereyra, Leonardo, Delacir, Luvanor (Renato Carioca), Zico, Sérgio Araújo, Bebeto e Zinho. Técnico: Telê Santana 
Criciúma: Luís Henrique, Silva, Silvio Laguna, Itá (Rebegui), Sarandi, Chicão, Adilson Heleno, Jair, Edmilson, Vanderlei, Paulo Gaúcho (Kléber). Técnico: Zé Carlos Paulista 
Gols: Bebeto aos 32 e 39 do 1º tempo e Zico aos 20 do 2º tempo.