Ainda me lembro de Janeiro de 2003 quando cheguei a Barcelona, cheio de esperanças de construir uma nova vida. Numa tarde gelada de inverno resolvi visitar o Camp Nou. Perto do estádio, me admirou ver uns pássaros verdinhos voando e fazendo algazarra nas árvores desfolhadas da cinzenta Travessera de Les Corts.
Aquilo era uma visão surreal do paraíso, como uma colagem do Miró. Perguntei a uma garota: que pássaro é esse? Um loro, disse ela me olhando como se eu fosse um ET. Me senti o mais estúpido dos estrangeiros, incapaz de reconhecer um simples periquito sulamericano em terras européias. Mas o que diabos faziam aqueles bichos soltos naquele frio? Como sobreviviam ao inverno europeu aquelas criaturas tropicais?
Mais tarde, no passeio pelo estádio do F.C. Barcelona, vi a galeria de de ex-jogadores estrangeiros do clube. Entre eles: Evaristo, Marinho Peres, Roberto Dinamite, Romário, Ronaldo… A guia turística vendo que eu era brasileiro fez questão de comentar da briga entre Louis Van Gaal e Rivaldo. O meia já estava no Milan e o treinador holandês apesar de ter ganho uma longa queda de braço já estava na corda bamba. Eram anos deprimentes pro Futbol Club Barcelona, saudoso do Dreamteam e sem um futuro definido.Menos de um ano depois, numa mesa de bar, eu escutava um catalão resmungar indignado com os rumores sobre a contratação de Ronaldinho. Imagine só, ele preferia que o Barça contratasse o alemão Carsten Jancker!
Lamentavelmente nunca mais vi esse rapaz (adoraria perguntar pra ele se valeu a pena a contratação de Ronaldinho), mas em compensação nunca mais ouvi falar de Jancker…Contrariando aquele culé visionário Ronaldinho foi contratado e chegou sorridente ao Camp Nou para ser a antítese do “galático” Beckham. Lá estava eu na estréia de Ronaldinho no amistoso Troféu Joan Gamper em que empataram com Boca Juniors: 1-1 com gols de Tevez e Gerard. Não me lembro muito do Ronaldinho naquele jogo. Fiquei muito mais admirado com a torcida do Boca Juniors, onde acabei sentando com meu manto sagrado. Aqueles 3 mil argentinos calaram 87 mil culés. Como ainda havia algum catalão naquele espaço reservado aos visitantes atrás do gol sul, se ouvia alguém gritar: Sientate! Quiero ver el partido! E os argentinos respondiam cantando e saltando: Esto es fútbol, no es cine! Esto es fútbol, no es cine! Esto es fútbol, no es cine!
Mas logo viria o segundo jogo oficial do Ronaldinho no Camp Nou, diante do Sevilla. O Barça perdia por 1×0 e o gaúcho recebeu uma bola das mãos do goleiro, antes do meio campo, deu uma arrancada, driblou dois e meteu, com um chute de fora, muito fora da área, um golaço espetacular. Uma jogada que só alguém convicto de ser o gol em pessoa. Alguém que é capaz de decidir como e quando as coisas acontecem em campo. Um craque com a urgência visceral de provar ao Camp Nou, a Barcelona e ao mundo a que veio. Era seu cartão de visitas. Hola, soy Ronaldinho.
E esse filme durou 3 anos. Uma catarse de 3 anos de dribles, gols, jogadas espetaculares, títulos, vídeos e muita festa. Assim como havia feito o rubro negro Evaristo décadas antes o orgulho culé que o sendo o jogador mais decisivo da história do clube até então. E o torcedor catalão, apesar de ser historicamente pessimista, parecia que tinha visto um passarinho verde. O que ninguém imaginava é que esse filme estava destinado a acabar com a premiação de Ronaldinho como o melhor jogador do mundo. Depois disso o que se viu dele foram remakes baratos de filmes clássicos. Ronaldinho era refém do jogador espetacular que tinha sido. Quando muito algum lampejo para nos deixar claro que a qualidade continua ali, o que evidencia que o que faltava era vontade.
O brasileiros se perguntavam porque aquele craque nunca veio jogar na seleção. Os espanhóis se perguntavam porque ele nunca voltou da copa de 2006. Me lembro bem do dia seguinte à eliminação do Brasil pela França. Eu estava de ressaca e tinha ido com amigos à praia de Castelldefels com uma camisa do Tabajara Futebol Clube. Joguei uma pelada com amigos brasileiros contra um combinado europeu: italianos e suiços. Sem ser nenhum craque deixei claro que ali havia um brasileiro orgulhoso do seu futebol. Meu prêmio, uma pelada de bêbados na praia e um dedão machucado. Como se fosse uma partida vital para recuperar o orgulho daquela seleção sem sangue, passível ante a derrota. Depois descobriria que na mesma hora, ali em Castelldefels, na mansão do gaúcho, Ronaldinho e Adriano enchiam a cara numa festinha particular pós-Copa. Nunca mais vi minha camiseta do Tabajara…
Ainda assim passei anos defendendo o decadente Ronaldinho em conversas com os torcedores do Barcelona. A maioria mais preocupada com o momento ideal de vendê-lo para ainda tirar proveito do negócio. Nunca consegui entender a maneira de ver o futebol daqueles torcedores que vão ao estádio como quem vai ao cinema. Na época eu via Ronaldinho como um puro sangue, que por não estar preparado para aquela dura corrida, sucumbiu aos vícios de uma cidade tão vadia de noite quanto trabalhadora de dia. A mesma cidade que apresentou a cocaína ao Maradona. E o mesmo club onde Johan Cruyff negociava com Romário: se você meter três gols contra o Atlético Madrid eu perdôo teu enésimo atraso aos treinos.
Os principais herdeiros desses três gols do Baixinho provavelmente são Ronaldo, Adriano e Ronaldinho. Grandes discípulos da filosofia sexo, cachaça e futebol. Bons malandros e perpetuadores da nossa cultura futebolística que premia a indisciplina. Otário é o que não sai na night, não reclama dos salários atrasados, se esforça no treino e tem amor à camisa. Porque se esse cara erra um gol decisivo, ele nem terá a desculpa do fraco pela cachaça, nem terá disfrutado das suas marias-chuteiras. Craque-malandro é o que ganha um milhão por mês, não treina, tira o técnico do time, não aparece nos jogos decisivos, mete os mesmos gols que o otário, é chamado pra seleção, e quando é vaiado tem o apoio de todos os companheiros.
Felizmente pro futebol existem clubes que pensam diferente. Um deles: Futbol Club Barcelona. Em 2007 vi, no Troféu Joan Gamper, um Ronaldinho lamentável caminhando em campo. Apesar dele abrir o placar com um gol de pênalti e da surra do Barça à Inter de Milão (5-0) era triste vê-lo. (Ainda estava anos luz daquele R10 que vi no empate com o Figueirense ano passado no Engenhão.) No time da Inter um Adriano melancólico, parecia que tinha abandonado o futebol mas tinha esquecido de sair de campo. No fim daquela temporada o Barcelona demitiria o paizão Frank Rijkaard e promoveria do time B o inexperiente Pep Guardiola.A primeira coisa que Guardiola fez como técnico do Barça foi dispensar Deco e Ronaldinho. Depois de tantos gols, tantos sorrisos e títulos o clube não teve dúvidas: preferiu dar ouvidos a um técnico inexperiente e dispensar o ex-astro da companhia. Guardiola diria na época: eu visse que ele quisesse voltar a ser aquele jogador ele ficaria no grupo. Hoje, quem ousaria contestar os títulos que ele conquistou depois de dispensar o R10?
Como bom herdeiro do Romário, Ronaldinho veio ao Flamengo, brigou com o Luxemburgo e conseguiu tirá-lo do clube. Mas ao contrário do Baixinho, que jogava seu futevolei na Barra, R10 decidiu jogar futevolei quinta-feira passada no Engenhão diante do Emelec. Pegou mal e ele foi vaiado, dentro da área não é lugar pra presepada. Pelo menos não pra aquela galera que pegou 3 horas de engarrafamento pra ver o gaúcho andar em campo. Ronaldinho já está velho o bastante para saber que o som que vem das arquibancadas é consequência das escolhas que ele faz dentro e fora do campo.
Quer um exemplo desagradável? O Flamengo tinha tudo para celebrar com um título no seu centenário em 1995. Mas a poucos minutos do fim, Romário (nobre deputado) decidiu não lutar por uma bola depois de um chute do ex-flu e tetra Branco. A bola foi recuperada e chegou aos pés do ex-rubronegro Aílton que entortou o Charles duas vezes e chutou, encontrando, dentro da área, a barriga do ex-rubronegro Renato Gaúcho. Sim, orgulho e vergonha, aplausos e vaias são lados da mesma moeda. Se você ganha um milhão de moedas por mês então… corra pelos aplausos!
Não espere parado pelas vaias!E aquelas criaturinhas verdes continuam voando e gargalhando pela cidade condal. Eu descobria mais tarde que aqueles passarinhos verdes são catorras argentinas(Myiopsitta Monachus) que eram vendidos como animais de estimação e foram abandonados. Mas devido a sua notável capacidade de adaptação foram capazes de se reproduzir e viraram praga na cidade. Hoje eu ousaria dizer as cotorras são hoje um símbolo da cidade, como as Ramblas, o Bairro Gótico e as obras de Gaudi. Mas talvez o símbolo mais internacional hoje seja Messi, essa cotorra argentina que dia após dia está dizimando os récords deixados por Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho…
É lamentável ouvir vaias no estádio. Se dá tanto trabalho encher o Engenhão numa quinta à tarde é muito melhor voltar a ouvir o tradicional MEEEEEEENGOOOOOOO. Entendo que se o Flamengo fosse um organismo talvez a vaia seria uma tosse, um sinal de que algo vai mal. Mas se o médico decidiu fazer uma lobotomia pra curar a conjuntivite e ainda deixou o doente pegar sereno no carnaval, paciência!
Ao doutor Ronaldinho eu já receitei o manual para ele se adaptar ao Flamengo. Pelo jeito ele já conseguiu marcar num clássico. Parabéns, R10, você já se igualou ao Maxi Biancuchi! Pena que pouco depois baixou a Pomba Gira dos Pampas em você. Essa expulsão até que demorou, só não pensei que fosse tão ridícula e desnecessária. Acabou devendo o bicho ao Paulo Vítor, sem o qual hoje seria vilão. Ainda bem que foi numa pelada sem importância como esse Fla-Flu… Mas ô Ronaldinho! Sem ser decisivo (positivamente) em clássicos e jogos decisivos você se enfrentará algo muito pior que a vaia: a indiferença e o esquecimento.
Quanto à torcida, por mais que a vaia seja um sinal de que estamos vivos, e ainda que seja direcionada ao jogador, sabemos que afeta ao time inteiro. Principalmente aos mais jovens. Por isso sugiro que da próxima vez a torcida prefira uma canção à vaia. Vamos cantar ao mundo inteiro, nem que seja de raiva.