O menino Hamilton de Holanda Vasconcelos Neto teve um natal perfeito em 1981. O Flamengo já havia lhe dado de presente o topo do mundo. E das mãos do seu avô (o mesmo de quem herdou o nome), Hamilton ganhou o seu primeiro bandolim, aos 6 anos de idade. Um ano antes ele já tinha feito o seu primeiro concerto no CLube do Choro de Brasília. Nascido no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, cresceu em Brasília, onde apesar da ausência de professores de bandolim na época, aperfeiçoou sua técnica tocando vários instrumentos. O seu talento é tão grande que não demora para ele aparecer na TV ao lado do seu irmão Fernando César.
Com dez anos de idade Hamilton já compôs o seu primeiro choro, “Chorinho pra Pernambuco”. Dez anos mais tarde já tinha conhecido craques do choro como Altamiro Carrilho e tocado com mestres como Raphael Rabelo, de quem seguiu os passos de transcender os limites do choro. Sua vontade de experimentar se nota não só no repertório, mas até mesmo em seu instrumento. Pioneiro, em 2000 pediu para que seu luthier lhe fizesse um bandolim de 10 cordas. Virtuoso, brilhante e único, como um camisa 10 do bandolim.
Foi tocando ao lado do seu irmão no grupo Dois de Ouro que gravou o choro “Rubro-Negro”, de sua autoria. A faixa 10 do álbum “Dois de Ouro” é, obviamente, uma música em homenagem ao Flamengo. Talvez mais do que isso, seja uma homenagem ao torcedor rubro-negro. Desse orgulho de ser rubro-negro que todos nós gostamos de cantar. Segundo Hamilton é um “samba-choro com uma pegada bem carioca”. A música começa com um batuque digno de arquibancada, seguido por seu bandolim que invade o campo com alegria de um lateral sambista. A bela melodia desenha a jogada que termina com a chegada do violão de sete cordas. Um volante, daqueles que desfilam classe, e que quase não se fabricam mais. E o bandolim/bola vai passando de pé em pé. No ar, um aroma de Canal 100, com suas jogadas memoráveis, dribles irreverentes e tabelas impossíveis.
Um toque mágico, a música ralentiza e vemos um camisa 10 matando a bola no peito, e colocando-a amávelmente no chão, com delicadeza e elegância – maestro do tempo e do espaço. Um belo lançamento que aciona um ponta esquerda que, com seus movimentos insinuantes, aciona o camisa 9 que, com um pequeno movimento manda a bola morrer dentro do barbante. Se escuta então o grito da cuíca anunciando mais um gol rubro-negro. E estas melodias/jogadas se sucedem, se repetem inevitáveis, reinventando-se na forma de jogar. Só muda a trajetória, o último toque, a parábola, o farfalhar da bola à rede, cúmplice dos mestres do improviso. Se consuma a goleada, nos repetidos silêncios que antecedem os gritos de gol. E da goleada surge a festa da arquibancada, da geral, do time. Por um instante tudo aquilo é uma coisa só: o Flamengo. Até o apito do juiz e os aplausos finais.
Não é de estranhar que esse ano Hamilton, tenha sido chamado para inaugurar o cidade cultural do RIO 2016 em Londres. Afinal o camisa 10 do bandolim já é um embaixador da música brasileira no exterior. Hoje ele toca pelo mundo inteiro, com a alegria de um menino que corre atrás da bola…
ADTRN: Você compôs o samba-choro “Rubro-Negro”. O batuque das arquibancadas da Nação Rubro-Negra te inspirarou?
Hamilton de Holanda: Com certeza me inspiram. Principalmente quando temos chance de ser campeões. Não vou muito ao estádio, prefiro ver o jogo em casa. Mas quando vou, volto com a sensação de sempre querer voltar. Não tem nada igual à paixão da torcida do Mengão!
ADTRN: Desde que Bonfiglio de Oliveira compôs “Flamengo” em 1911, inúmeros artistas homenagearam o clube. Com qual deles você gostaria de fazer uma tabelinha musical?
Hamilton de Holanda: Com Lamartine Babo.
ADTRN: De todas as músicas rubro-negras qual a tua preferida? Por que?
Hamilton de Holanda: Samba rubro-negro. Junto com Coisinha do pai, essa foi a primeira música que cantei na vida, com meus 3/4 anos de idade. “Flamengo joga amanhã, eu vou pra lá, vai haver mais um baile, no Maracanã…”
ADTRN: Em sua gravação do clássico “1×0″ do Pixinguinha você usa “Brasileirinho” do rubro-negro Waldir Azevedo como tema incidental. Como se a gente fosse mais brasileiro gritando gol. Que gol do Flamengo você gostaria de reviver com uma música?
Hamilton de Holanda: O segundo gol do Nunes em 81 (terceiro do Flamengo), eu era muito pequeno, mas me lembro de assistir na madrugada o Mengão campeão do mundo no Japão.
ADTRN: Você além de bandolinista virtuoso é um excelente compositor. Não usa a camisa 10, mas usa um bandolim de 10 cordas. Que jogador rubro-negro você diria: esse foi (ou é) um grande artista?
Hamilton de Holanda: Júnior e Zico. Eles foram artistas da bola, com aquele poder de encantamento que nos deixa sem ar.
ADTRN: Por último gostaria de agradecer em nome de todos do blog e pedir que você faça uma pergunta ao mais musical dos jogadores rubro-negros. Um pagodeiro de primeira, que vendeu muitíssimos discos com Povo Feliz (Voa canarinho), em 1982. O maestro Júnior. A bola está contigo, Hamilton.
Hamilton de Holanda: Júnior, sei que a resposta é difícil, mas não posso deixar de perguntar : um gol ou um samba ?
Com vocês, o samba-choro de Hamilton de Holanda, um rubro-negro.
Gostou? Que tal ouvir mais? É fácil. Contemporâneo e generoso, Hamilton que disponibiliza em sua página ( http://www.hamiltondeholanda.com ) toda sua vasta discografia, vários downloads e até partituras. Golaço, Hamilton!!!
Saudações Rubro-negras!






















