Não há palavras para descrever o absurdo que é Joel Santana ser treinador do Flamengo em 2012. Nenhum time do primeiro escalão que se pretenda sério pode ser liderado por um profissional obsoleto. É mais absurdo se o time for o Flamengo, clube para o qual Joel Santana devia ser persona non grata desde 2008.
Joel Santana tem lugar em times pequenos, em comerciais que o ridicularizem e no passado, quando os estaduais tinham alguma importância. Só.
Como era de se prever, Joel Santana expôs o Flamengo outra vez ao ridículo. A entregada vergonhosa para o Olimpia e a eliminação na Libertadores, um período de 28 dias de treinamento jogado no lixo e um time patético no campeonato brasileiro.
E no meio do caos, surge outro personagem de ópera bufa: Renato Abreu. Ex-jogador em atividade, apelidado pelos torcedores nas redes sociais de Canelada, Renato sequer acerta os chutes de sua primeira passagem pelo Flamengo. É uma inutilidade em campo.
Renato devia ficar quieto. Aproveitar o dinheiro que recebe ou louvar os atrasos de salário que futuramente cobrará com juros generosos. Percebe salários para fazer algo que não é capaz: jogar futebol de primeiro nível. Mas não. Renato falou.
A um, falou que todos os times querem um camisa dez, mas que o Flamengo tem jogadores (sim, no plural), que podem fazer essa função, “só que de um jeito diferente”. Bota diferente nisso: perdendo a bola, errando passes e recuando até a posição que menos lhe evidencia a falta de aptidão, a de volante. De um jeito diferente, diz Renato. Causa-me náuseas.
Não contente, Renato Canelada Jeito Diferente Abreu saiu em defesa de Joel Santana. É o atestado definitivo de que o Flamengo foi tomado por posseiros. Renatos e Joéis. Dirigentes lamentáveis. Gente que quer fazer o Flamengo de 2012 entrar para a história.
Só que de um jeito diferente. Indo para a segunda divisão.
A língua portuguesa é rica e vasta. Na última atualização do dicionário Aurélio, foram computados mais de 30 mil verbetes. E ano após ano são incorporados novos vocábulos ao nosso linguajar. Corre o risco de vermos na próxima edição desse conceituado dicionário o verbo flamengar. E viria com a seguinte definição: flamengar é a capacidade de entregar confrontos aparentemente decididos. Só na nossa história recente foram diversas as flamengadas. As derrotas para o América do México e Santo André; o empate com o Goiás em 2008, após estar vencendo por 3 a 0; empate com o Olímpia na Libertadores desse ano. Tiveram algumas flamengadas mais antigas como a derrota para o Bonsucesso em 1968, onde poderíamos empatar para sermos campeões da Taça GB; a derrota para o Serrano que nos arrancou o tetra estadual de 1980; empate com o Botafogo em 1989, que nos tirou a chance de liquidar o campeonato estadual daquele ano. Com certeza, vocês devem lembrar de outros micos históricos.
Apesar do time atual não me despertar mais nenhum sentimento nobre, muito menos confiança, resolvi comparecer ao duelo contra o Internacional. Só que depois que cheguei ao Engenhão, começou a bater depressão. O Estádio é bonito, mas estranho demais. Não tem acústica, o gramado fica longe da arquibancada e é desconfortável. Com ingressos caros, a classe média é maioria dos que comparecem aos jogos. E isso é prejudicial demais a um clube de massa como o nosso. Não me recordo a última vez que ouvi no Estádio o tradicional grito de Meeeeeeeeengo. Por que as Torcidas Organizadas só cantam músicas com gosto duvidoso e esquecem de gritar isso? E o cante comigo Mengão? Por essas e outras, visitar o Engenhão me entristece cada vez mais.
O jogo em si foi esquisito. Abrimos 2 x 0 em poucos minutos e parecia que íamos dar uma enfiada histórica na gauchada. Não pelo futebol apresentado pelo nosso time, mas pela fragilidade da defesa colorada. Engraçado que em nenhum momento, mesmo após abrir vantagem, a torcida empolgou. Ninguém mais confia no time do Joel e seus comandados. Isso ficou gritante quando o Inter diminuiu o placar ainda no primeiro tempo. Muitos palavrões já eram balbuciados entre os torcedores.
Veio a segunda etapa e logo no início, Love acalmou a torcida, fazendo 3 x 1. Até eu mesmo, que sou pessimista toda vida, já estava imaginando uma goleada. Como sou tolinho… Tomamos o empate e mais uma vez ficamos atônitos no estádio. Não se jogou mais e muito menos se ouviu incentivos. Não tínhamos mais força. A apatia tomou conta até de nossa torcida. Acabou o jogo e nenhum protesto. Uma vaia apenas. E o Engenhão foi-se esvaziando silenciosamente, triste e melancólico.
É… o Flamengo flamengou de novo.
Flamengo 3 x 3 Internacional 26 de maio de 1992 – Campeonato Brasileiro Estádio: Engenhão – Rio de Janeiro Público: 14.238 Árbitro: André Luiz de Freitas Castro Flamengo: Paulo Victor, Léo Moura, Welinton, González e Magal; Aírton (Amaral), Luiz Antonio (Renato Abreu), Kleberson e Ibson; Ronaldinho Gaúcho (Deivid) e Vagner Love. Técnico: Joel Santana. Internacional: Muriel, Nei, Rodrigo Moledo, Indio e Fabricio; Elton, Guiñazu, Josimar (Maurides) e Dátolo; Gilberto (Marcos Aurélio) e Dagoberto (Bollati). Técnico: Dorival Junior. Gols: Airton, aos 8, Ronaldinho Gaúcho, aos 16 e Gilberto, aos 33 do 1º tempo. Vagner Love, aos 3, Fabricio, aos 21 e Dátolo 24 do 2º tempo.
Não sei como aconteceu. Mas acho que estou no passado. Eu só lembro de estar na frente do computador, com uns 50 tabs abertos, cada um com uma notícia do Flamengo. Daí me levantei e comecei a bater a cabeça na parede. De repente estou em 1962. Não me pergunte como. Nem lembro que notícias estava lendo. Só anotei as palavras que surgiam na minha cabeça pouco a pouco: balanço, Levy, Joel, treino, Deivid, SMS, 2008, Ibson, anúncio, Patrícia, futebol, Felipe, Barcelona, Ronaldinho, dívidas, Capitão Leo, caixa de areia, leigos… Estou tentando montar o quebra-cabeça mas nesse exato momento só posso me preocupar em sobreviver.
Acontece que apareci na casa de estranhos e fui parar na prisão. São os anos de chumbo do Franco e já tinha perdido minhas esperanças de voltar a ver o meu Flamengo, meu Brasil. Acontece que quando vi, o papel que achei na minha cela e onde anotei aquelas palavras desconexas eu tomei um suto. Era o Mundo Deportivo, não sei como esse jornal foi parar ali. Provavelmente é do meu companheiro de cela, mas ele não se importou que eu pegasse o jornal, nem que rabiscasse em cima dele com um lápis.
Pois a surpresa que eu tive foi ver o Flamengo na capa desse jornal. E que grande notícia essa! O Flamengo ganhou do Barcelona. Foi, ontem dia 1 de maio de 1962. Ou cinquenta anos antes de eu bater a cabeça na parede. O que importa é que o Flamengo ganhou aquele jogo.
F. C. Barcelona 0 x 2 C.R. Flamengo
30/04 – Estadio: Camp Nou – Barcelona – Espanha
Barcelona: Pesudo, Benítez, Rodri, Gracia, Segarra, Fusté, Zaballa, Zaldúa, Pareda y Csalay. Segundo tempo: Celdrán, Foncho, Rodri, Gracia, Villaverde, Fusté, Rifé II, Kocsta, Re, Gasull y Vicente.
A matéria começa falando de fracasso econômico, mas curiosamente não se refere ao Flamengo. É pura coincidência. Do Flamengo só se fala de futebol. E são muitos os elogios. Por exemplo:
“De los jugadores brasileños quienes mayormente nos impresionaron fueron sin lugar a dudas el guardameta, los do ‘morenos’ de la zaga – central y lateral izquierdo – Dida y por encima de ellos este extremo izquierda que lleva apellido español Miranda. Un hombre, un jugador Miranda que lleva mucho fútbol en la cabeza y mucha pólvora en ambos piés. Y con un físico extraordinário.”
Talvez seja uma pegadinha do destino. Talvez minha missão seja lembrar à Nação Rubronegra que um dia nós amamos um certo Joel. Aquele virtuoso ponta chamado Joel Antônio Martins
que era o titular de um tal Garrincha. Pelos deuses do futebol! Nunca deveríamos nos referir a Joel Santana só pelo nome de Joel. Afinal Joel só existe um! Aquele que formava ataque com Dida e Henrique. Daquele time que inspirou ao menino Arthur Antunes de Coimbra.
Zico, nosso camisa 10, Que se inspirou em Dida… camisa 10…
Esse menino Arthur hoje tem quase 10 anos!
Acho que o número 10 tem algo a ver com minha volta ao passado. Algo aconteceu 10 dias antes desse dia. Mas o que aconteceu durante esses 10 dias? Nada? Não tenho memórias do Flamengo nesses 10 dias… Preciso me concentrar e tentar recuperar memória recente. Ou talvez seja melhor descansar e deixar o tempo passar…
Toque de recolher. Amanhã vou tentar descobrir como voltar ao futuro. Mas nem sei pra quê, se agora temos Jordan, Joel, Henrique, Dida… Se ao menos eu pudesse seguir os passos do Flamengo. Provavelmente estão numa temporada de amistosos na Europa, se eu soubesse onde jogarão nos próximos dias eu podia ao menos…
Bom, nada disso importa até eu conseguir sair dessa prisão. Tomara que um dia eu consiga sair daqui e reencontre o meu Flamengo, meu Brasil.
Bona nit, company! – diz o meu colega de cela.
Buenas noches!