About Mauricio Neves

Mauricio Neves de Jesus é sócio proprietário do Flamengo. Escreve também para o blog da Flamengo.net e é autor do livro “1981 – O primeiro ano do resto de nossas vidas” , em parceria com Arthur Muhlenberg e Lucas Dantas. Coleciona tudo o que se refere ao Flamengo, principalmente camisas, e é um dos fundadores do site Fla Manto Sagrado. Twitter: @Flapravaler

Vinte Anos Esta Tarde.

A Nação já tinha um Deus, Antônio José da Raça Rondinelli Tobias. Já éramos todos súditos de Rei Arthur Primeiro e Único. Colecionávamos heróis como figurinhas emocionais, todas carimbadas pela nossa paixão. Um dia, um desses heróis pendurou seu capacete black power de tantas batalhas e tomou em mãos uma batuta para reger a Nação que cantou, cantou e cantou. A cada canto mais o Maestro crescia. E assim fomos pentacampeões.

Conte comigo, Mengão:

Campeão 80: O Brasil aos Pés de um João Danado
Bi 82: Cala-te, Olímpico
Tri 83: São Judas Tadeu Maior do que Todos os Santos
Tetra 87: Campeão da Verdade
Penta 92: Valeu, Maestro!

Toda a gratidão do mundo, desta e de outras vidas e de cada um dos 35 milhões a você, Leovegildo Lins da Gama Júnior.

Valeu, Maestro!

Mauricio Neves

Um de nós

Quando garoto, você parecia um veterano. Entrou na fogueira, mandou dois petardos contra o América e comemorou como se não coubesse no Manto Sagrado. Aos saltos, braços loucos, berro rouco. Logo vimos que você era um de nós. Campeão carioca em 1974.

Sua vasta cabeleira dos anos 70 não era Black Power.

Era Red and Black Power.

Quando Rondinelli marcou o gol no dia 3 de dezembro de 1978, você correu para abraçá-lo com o abraço que era de cada um de nós.

Um de nós, Júnior. Você sempre foi um de nós.

E veio o tricampeonato, o campeonato brasileiro de 1980 e o primeiro ano de resto de nossas vidas, 1981. Você estava lá. Campeão de tudo.

No dia em que conquistamos o pentacampeonato da Taça Guanabara, em um lance que já estava parado, uma bola chutada de longe ia entrando em nossa meta e você saiu correndo como se estivesse salvando uma vida, e para não deixar a meta ser vazada mesmo com o jogo parado, deu um tapa na bola. Aqui não, violão. Comemoramos como se fosse gol porque você era isso, Júnior. Um de nós.

E mais taças, no Brasil, lá fora, onde houvesse taças para conquistar. Aí Zico foi embora, e no primeiro jogo após a saída Dele, você fez um gol de falta como se dissesse a cada um de nós: o Flamengo continua.

Você foi embora. E voltou. E disse: só saí de férias, agora voltei para casa.

Beijou o Manto Sagrado e professou: essa é minha segunda pele.

Ganhou a Copa do Brasil e o campeonato carioca com um gol que matou o Fluminense e chorou quando seu filho entrou no gramado e disse: – Pai, nós somos campeões.

Não parecia haver mais nada, Júnior. Mas veio o pentacampeonato contra o Botafogo e você foi o Maestro.

Quando veterano, você parecia um garoto. Fez os gols e comemorou como se não coubesse no Manto Sagrado. Aos saltos, braços loucos, berro rouco. Pentacampeão do Brasil

Obrigado por tudo, Júnior. Acima de tudo, por ter sido um de nós.

Feliz aniversário, Maestro.

Renato Abreu defende Joel Santana: triste retrato dos posseiros do Flamengo

Não há palavras para descrever o absurdo que é Joel Santana ser treinador do Flamengo em 2012. Nenhum time do primeiro escalão que se pretenda sério pode ser liderado por um profissional obsoleto. É mais absurdo se o time for o Flamengo, clube para o qual Joel Santana devia ser persona non grata desde 2008.

Joel Santana tem lugar em times pequenos, em comerciais que o ridicularizem e no passado, quando os estaduais tinham alguma importância. Só.

Como era de se prever, Joel Santana expôs o Flamengo outra vez ao ridículo. A entregada vergonhosa para o Olimpia e a eliminação na Libertadores, um período de 28 dias de treinamento jogado no lixo e um time patético no campeonato brasileiro.

E no meio do caos, surge outro personagem de ópera bufa: Renato Abreu. Ex-jogador em atividade, apelidado pelos torcedores nas redes sociais de Canelada, Renato sequer acerta os chutes de sua primeira passagem pelo Flamengo. É uma inutilidade em campo.

Renato devia ficar quieto. Aproveitar o dinheiro que recebe ou louvar os atrasos de salário que futuramente cobrará com juros generosos. Percebe salários para fazer algo que não é capaz: jogar futebol de primeiro nível. Mas não. Renato falou.

A um, falou que todos os times querem um camisa dez, mas que o Flamengo tem jogadores (sim, no plural), que podem fazer essa função, “só que de um jeito diferente”. Bota diferente nisso: perdendo a bola, errando passes e recuando até a posição que menos lhe evidencia a falta de aptidão, a de volante. De um jeito diferente, diz Renato. Causa-me náuseas.

Não contente, Renato Canelada Jeito Diferente Abreu saiu em defesa de Joel Santana. É o atestado definitivo de que o Flamengo foi tomado por posseiros. Renatos e Joéis. Dirigentes lamentáveis. Gente que quer fazer o Flamengo de 2012 entrar para a história.

Só que de um jeito diferente. Indo para a segunda divisão.

Vestiu Rubro-Negro Não Tem Pra Ninguém: Lico

Quando o Flamengo pisou o gramado do maior estádio do mundo no dia 8 de novembro de 1981, todos ficaram surpresos com a presença daquele jogador de pernas compridas e passo cadenciado. Era Lico, em sua primeira aparição como titular rubro-negro no Maracanã, com a camisa 11 habitualmente vestida por Baroninho. Lico havia passado discretamente pela Gávea no ano anterior, comprado ao Joinville, mesmo time para o qual foi emprestado como forma de quitar parte de seu passe. Voltou ao Rio discretamente após o campeonato brasileiro de 1981 e havia sido utilizado poucas vezes, sempre no segundo tempo, até ganhar a titularidade contra o Botafogo, artimanha concebida por Carpegiani na véspera.

Mais surpreendente foi vê-lo pela ponta direita, com Tita deslocado para a esquerda. E o Flamengou goleou por 6×0 com Lico tocando, driblando, tabelando e fazendo gol como se o Flamengo estivesse esperando por ele para se tornar campeão de tudo. Lico mora atualmente em Imbituba, sua terra natal, onde coordena uma escolinha de futebol. Contrariado com o desempenho do Flamengo diante do Internacional (“Às vezes nós até jogávamos mal, mas nunca com apatia, ninguém pode ser apático defendendo o Flamengo”), o camisa 11 campeão do mundo respondeu a 5 perguntas do ACIMA DE TUDO RUBRONEGRO.

ADTRN: Lico, a primeira pergunta foi feita por nosso entrevistado anterior, Zico, que disse o seguinte: “Gostaria de saber do Lico em qual posição no futebol ele gostava de jogar e se sentia melhor, e aproveito para enviar um grande abraço para ele e toda a família.”

Lico: É uma honra ser entrevistado para falar do Flamengo, ainda mais com uma pergunta feita pelo Zico. Um abraço para ele e para toda a família também. Eu joguei em todas as posições do meio para a frente, e no Flamengo joguei mais como falso ponta-esquerda, fechando o quadrado no meio de campo. Mas antes de ir para o Flamengo, eum jogava na meia-direita pelo Joinville, com a camisa 8. No primeiro dia de Gávea, o time principal estava na Europa e o Zico estava no Brasil, voltando de uma contusão. Eu joguei um coletivo contra os juniores, na meia direita, e o Zico na meia esquerda. Nunca haviámos jogado juntos, mas o entrosamento foi imediato e Zico me elogiou muito. Mais tarde, quando fui titular, a meia direita era do Adilio e eu fui para a ponta, mas também com a missão de fechar o meio. Então é isso, a minha posição preferida era a meia direita, ainda mais se fosse ao lado do Zico. Mas naquele Flamengo, qualquer posição servia, só tinha craque e era fácil jogar.

ADTRN: Você teve participação direta no segundo gol em Tóquio. Como foi aquele lance?

Lico: Tem uma coisa curiosa nesse gol. Era uma falta frontal, e o Zico costumava cobrar por cima da barreira. Mas o piso em Tóquio era muito duro, e mesmo sem combinar, achei que ele podia cobrar rasteiro para dificultar o goleiro e me preparei para o rebote. Depois do jogo o Zico disse que pensou mesmo isso, em chutar para a bola quicar antes do goleiro. Foi o que aconteceu, o goleiro deu rebote, até foi um rebote curto, mas eu estava em cima do lance. Toquei na bola de leve, achando que o goleiro não ia se recuperar, mas ele esticou o braço e bateu na bola. Eu ia voltar no lance mas vi o Adilio chegando e aí só tirei o corpo e assisti o gol de camarote. Eu sempre prestei atenção nos rebotes, e há pouco tempo, em um jogo do Fla Master em Joinville, o Nunes bateu uma falta e mesmo com meu joelho estourado eu cheguei em cima e marquei o gol.

ADTRN: Hoje você trabalha com formação de jogadores. Como você vê a base do Flamengo?

Lico: Bom, estou longe e não sei os detalhes, mas acho que os garotos da base deviam ser preparados não para se tornarem jogadores de futebol, mas jogadores do Flamengo, o que é muito diferente. Não adianta só ter bola, a camisa do Flamengo pesa. Então eles deviam esquecer um pouco os carrões, as festas, e se dedicarem a entrar para a história do Flamengo. O resto vem naturalmente, porque quem vence com a camisa do Flamengo, vence qualquer desafio. E também devem ser lembrados sempre que o futebol é um jogo coletivo, o importante é o time vencer. Uma vitória vale mais do que qualquer firula.

ADTRN: Você foi campeão de tudo pelo Flamengo. Mesmo com tantas vitórias, há alguma derrota que, se pudesse, você voltaria no tempo para evitá-la?

Lico: Pode até parecer ingratidão diante de tudo o que conquistamos, mas há sim. Se eu pudesse, mudaria o resultado do jogo contra o Peñarol pela Libertadores de 1982 no Maracanã. Precisávamos da vitória para ir à final. Jogamos muito bem, criamos várias chances de gol, dominamos o jogo todo, mas a bola não entrou. Em uma única escapada, o Peñarol teve uma falta e o Jair, que jogou no Inter, acertou o ângulo. A torcida reconheceu nosso esforço e aplaudiu, foi bonito, mas não engolimos aquela derrota. Tenho certeza que nós iríamos para o bicampeonato mundial se passássemos ali. Ficamos abatidos. Nós sentíamos a derrota tanto quanto os torcedores. Não sei se hoje é assim. Se eu pudesse mudar um resultado na minha vida, seria aquele.

ADTRN: Lico, nós agradecemos o seu carinho. Foi uma prazer entrevistá-lo. E assim como o Zico deixou uma pergunta para você, por favor, faça uma pergunta para um ex-jogador do Flamengo.

Lico: Eu que agradeço e deixo um abraço para todos os torcedores rubro-negros. A minha pergunta é para um dos jogadores mais completos que vi atuar e que, além de ser um jogador extra-série, era um camarada que estava sempre de alto astral, de bem com a vida. Estou falando do Leandro. Ele se consagrou como lateral, mais tarde jogou como zagueiro, mas quando eu não pude jogar a final da Libertadores, o Carpegiani puxou o Leandro para o meio e ele foi simplesmente perfeito. A pergunta é parecida com a que o Zico fez pra mim. Leandro, se você fosse jogar no futebol de hoje, jogaria em qual posição? Um grande abraço!

Vestiu rubro-negro não tem pra ninguém: Zico

O Acima de Tudo Rubronegro tem a honra de inaugurar uma série de
pequenas entrevistas com personagens fundamentais do Rubronegrismo.
Serão sempre quatro perguntas feitas por nós e uma última que o
próprio entrevistado fará ao entrevistado seguinte.

Na estréia de gala, pisa o tapete vermelho Arthur Antunes Coimbra,
Arthurzico nas ruas de Quintino, Zico no Maior Estádio do Mundo,
Zicão-Zicaço no vozeirão de Jorge Curi, Rei de Todos Nós.
Obrigado, Zico. Por tudo.

O camisa 10 da Gávea. Ilustração: Gustavo Berocan

ADTRN: Como torcedor do Flamengo, sabemos que seu ídolo era o Dida.
Mas qual o momento mais marcante que você viveu como torcedor?

Zico: Foi no campeonato carioca de 1963, quando Fla e Flu empataram
em 0×0 e esse resultado deu o título ao Fla. O público de 177 mil
pagantes é recorde até hoje entre clubes e foi uma loucura ver o
Maraca vibrando em vermelho e preto.Tinha 10 anos e estava com meus
irmãos Edu e Tunico na tribuna. Meu irmao Antunes estava na
arquibancada.

ADTRN: Ultimamente você mostrou em programas de televisão o Manto
Sagrado usado em Tóquio. Quais outras camisas você guardou e qual você
acha mais bonita, já que jogou com vários modelos?

Zico: Tenho várias camisas, até do meu tempo de juvenil. Acho mais
bonita a tradicional, com listras pretas e vermelhas menores.

ADTRN: Quando você foi para a Itália, continuou ligado emocionalmente
ao clube? Procurava saber dos resultados?

Zico: Acompanhava, claro, e tinha um canal (Rettequatro) que passava
alguns jogos direto.

ADTRN: Das músicas que a torcida cantava na arquibancada, qual sua favorita?
Zico: Aquela que começa com Oh meu MENGÃO, eu gosto de você, quero
cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro…

ADTRN: No livro “Zico conta a sua história” você disse que com a
chegada do Lico o time de 1981 ficou completo. Que pergunta você faria
ao Lico?

Zico: Gostaria de saber do Lico em qual posição no futebol ele
gostava de jogar e se sentia melhor e aproveito para enviar um grande
abraço para ele e toda a família.

O nome (e o sobrenome) do inimigo

A (falta de) gestão de Patricia Amorim como presidente do Flamengo é um elogio ao absurdo. Patricia foi nadadora de feitos medianos e é vereadora. Como bem diz um amigo, o vereador é o contínuo da política. Eis Patricia Amorim: nadadora de uma Olimpíada sem classificar-se às finais e garota de recados na vida pública. Elegeu-se presidente de uma Nação.

Não podia mesmo dar certo.


No primeiro ano, Patricia viu o Flamengo ganhar as páginas policiais, fez o time chegar atrasado a um jogo decisivo de Libertadores porque queria um lugar no ônibus e mostrou-se perdida diante do Flamengo do futebol, um tanto maior do que aquele das piscinas. Perdida: semeou a discórdia entre Braz e Andrade no primeiro semestre, trouxe Zico no segundo. Trouxe para traí-lo, expondo o ídolo maior ao escárnio em praça pública. O Flamengo flertou com a segunda divisão.

No segundo ano, Patricia usou de um dinheiro que o Flamengo não tinha para contratar um ícone em decadência e entregou o futebol, de porteiras fechadas, a Luxemburgo. Venceu campeonatos pequenos, a Copa São Paulo e o campeonato estadual. Aproveitou o brilhareco e saiu em todas as fotos. Mas deixou o clube à deriva, sem patrocínio, sem lenço, sem documento.

No terceiro ano, Patricia demitiu Luxemburgo horas depois de garantir ao vivo na Rádio Tupi que o técnico seria mantido, só mais um ato da crise iniciada antes mesmo de o ano futebolístico começar, feito notável até mesmo para uma ignorante em futebol como ela. Tentou apagar a fogueira da crise com gasolina: contratou o abominável Joel Santana que abandonara covardemente o Flamengo em 2008. O time foi eliminado de modo constrangedor na primeira fase da Libertadores e não disputou sequer uma final de turno no estadual.

Ignoremos os detalhes de histórias como fazer do lamentável e omisso Luiz Augusto Veloso diretor de futebol, de escrever cartas abertas dizendo-se boa presidente porque os parquinhos estão cheirando à tinta e de deixar claro que o presidente de fato é o seu marido, torcedor do Fluminense. Ignoremos, porque não precisamos dos detalhes para entender que Patricia Amorim vem esbulhando o Flamengo nos últimos três anos.

Essa derrota para o Vasco ocorrida há pouco não é nada perto de todas as demais derrotas impostas ao Flamengo por Patricia Amorim e sua trupe. Aliás, vencer o estadual seria fazer uma cirurgia plástica em paciente com metástase.

A derrota no estadual será assim combatida por Patricia Amorim: demitirá Joel Santana (não é mérito, posto que jamais deveria ter sido contratado) e desviará os tiros a ela endereçados a quem até merece ser atingido, mas merece menos.

Não esqueça, amigo rubro-negro, o nome do maior inimigo do Flamengo hoje.

É Patricia.

E o sobrenome é falta de vergonha na cara.

O Pavoroso Joel e suas criaturas, os volantes híbridos

Quando o apego por volantes híbridos (cabeças-de-bagre compernas-de-pau) parece já ter esgotado todas as suas variações, Joel Santana,cujo nome escrevi pela última vez e doravante será chamado apenas de O Pavoroso,se superou. Willians, volante híbrido juramentado, foi escalado como meia deligação.
O mundo muda em velocidade alarmante, é fato. Todavia, meiade ligação ainda deve ser o sujeito capaz de acertar passes ofensivos, derevezar com os laterais e de se aproximar dos atacantes com algo a ofereceralém da baba viscosa do cansaço provocado pela correria estéril. Willians não éum meia de ligação. Willians machuca a bola. Willians tranca o jogo. Willians éum erro, um ponto-e-vírgula que separa sujeito e predicado.
Quando Willians é escalado como volante híbrido, roubaalgumas bolas. Só. Willians não sabe o que fazer com as bolas que rouba e entãotoca para seu superior, Renato Abreu Arantes do Nascimento ou, na falta dele,para o Júnior César. Aí o Júnior César perde a bola e Willians tem a chance dedar mais alguns carrinhos e iludir os desatentos que pensam: puxa, Willians nãodesiste.
Não parecia haver algo pior do que esse Willians que rouba,passa mal e rouba de novo, até O Pavoroso escalá-lo como meia de ligação, àfrente de Muralha e Luiz Antônio. Como não estava em posição de tentar bloquearo jogo do adversário, Willians passou a tarde bloqueando o jogo de Muralha eLuiz Antônio. Os garotos tentavam sair para o jogo, mas morriam nesse obstáculocamuflado chamado Willians Armador. Era como se houvesse um muro separando otime do Flamengo ao meio. Tudo morria em Willians.
Ao escalar dois ou três volantes híbridos, o mau treinadoresconde sua incompetência porque passa a falsa impressão de que a culpa não ésua – afinal, o que fazer com jogadores que não sabem passar a bola? Porém,quando os volantes sabem jogar, como é o caso de Luiz Antônio e Muralha, ficaescancarado que o time é mal treinado, que não tem opções táticas, que não temuma mísera jogada ensaiada.
O jogo de ontem escancarou a verdade sobre Willians. Quandoé escalado como volante, ele apenas não joga, não produz, não tem serventiaalém de alguns carrinhos cenográficos. Porém, quando escalado mais avançado,Willians atrapalha o próprio time e anula essa grata surpresa que é o jogo deMuralha e Luiz Antônio.
A partida contra o Friburguense era tão fácil de ser vencidaque o gol da vitória veio em passe de Paulo Sérgio e conclusão de Kléberson. Oproblema é que essa partida só foi jogada a partir da entrada de Kléberson. Atéentão, a partida era do Flamengo contra Willians e O Pavoroso, uma atrocidadeque ainda que se estendesse pela eternidade estaria condenada ao 0×0.
Friburguense 0×1 Flamengo
18 de março de 2012 – Taça Rio
Estádio Cláudio Moacyr – Macaé
Árbitro: Wagner do Nascimento Magalhães
Flamengo: Felipe, Galhardo, González, David Braz e JúniorCésar; Muralha, Luiz Antônio, Willians (Kléberson) e Bottinelli (Negueba);Thomás (Paulo Sérgio) e Diego Maurício. Técnico:Joel Santana
Friburguense: Marcos, Sérgio Gomes, Cadão, Diego Guerra eFlavinho; Zé Victor, Lucas, Marcelo (Diego Santos) e Jorge Luiz; Ziquinha(Marquinhos) e Rômulo. Técnico:GérsonAndreotti

Gol: Kléberson aos 35 do 2º tempo.

Que não volte a covardia

O começo do jogo foi preocupante. Gerardo Pelusso armou seuOlimpia como armava a La U de 2010, seis homens compactando o meio na contençãoe atacando com pelo menos quatro com a bola recuperada. Era o plano paraprender o Flamengo e esperar pelo gol que quase veio na cabeçada de Orteman quePaulo Victor saltou junto ao pé da trave direita.
Fosse o Flamengo aquele de muitos volantes que não sabempassar e os paraguaios teriam vencido no primeiro tempo. Mas Luiz Antônio eMuralha alternaram o jogo de um lado para outro e criaram espaço paraBottinelli se aproximar de Ronaldinho e Love. Só não funcionou melhor porquenão havia laterais para seguir pelo corredor – os constrangedores Galhardo eJúnior César ora perdiam a bola, ora voltavam o jogo para a defesa.
Sem laterais, para fazer um gol seria preciso achar abrecha, que surgiu por obra, graça e ginga de Love que deixou Bottinelli defrente para o crime. Bola por cima do goleiro e fomos para o intervalo com um1x0 farto e generoso para um time que só havia chutado a gol duas vezes, asduas de longe, sem perigo.
Veio o segundo tempo e o Olimpia obrigou-se a se expor. Comespaço, Muralha e Luiz Antônio jogaram por si e pelos laterais e assim veio opênalti convertido por Ronaldinho, depois de Luiz Antônio tocar para Lovedriblar o goleiro e levar o rapa. O time não deixou o Olimpia respirar eRonaldinho deu um passe genial para Luiz Antônio marcar com a tranquilidade deum veterano de muitas guerras e matar o jogo.
É, matamos o jogo, foi o que pensei. O Flamengo seguiuabsoluto até levar o gol de falta de Zeballos. Não considero falha de PauloVictor por ter levado o gol em seu próprio canto. Todos esperávamos que Marincobrasse por sobre a barreira e apareceu Zeballos acertando um míssil. Aí Joelmandou Negueba ao campo, substituição incompreensível para um time que precisade tranquilidade e não de um velocista descerebrado.
González falhou e permitiu a Caballero marcar o segundo. Oescore apertado deixou o Flamengo apavorado como se todos soubessem que o empateera questão de tempo, e acabou sendo questão de tempo e de mais uma falha deGonzález e de um posicionamento esdrúxulo de David Braz e Galhardo.
A cara de espanto dos jogadores do Flamengo me fez agradecerpor faltar pouco tempo para acabar o jogo. Com mais cinco minutos, estaríamosamargando uma derrota com gosto de tragédia ao invés de um empate com gosto dederrota.
Não há dúvida de que os garotos Muralha e Luiz Antônio deramqualidade ao time, de que Bottinelli melhorou com a sequência e de que LéoMoura fez muita falta. Porém, o bom futebol apresentado durante meia hora nosegundo tempo é o máximo que pode jogar um time que não tem senso táticosimplesmente porque o treinador é só um barrigudo distribuidor de camisas. Nãohá uma jogada ensaiada, não há noção de cobertura, não há um comando que faça otime acalmar o jogo, desacelerar o andamento e sonegar a bola ao adversário.
Terminou com gosto amargo a noite que se desenhou promissora,mas a vaga está ao alcance. Já conhecemos os adversários e nenhum deles é umsupertime. É possível vencer no Paraguai e no Equador, desde que Joel não seacovarde e volte a encher o time de volantes cegos. Joel, que se irritou com apergunta na coletiva que lembrou o desastre de 2008. Joel, que lança Negueba sóde birra porque é o Neguebinha do Papai Joel. Joel, que disse que o Flamengo esqueceude tirar o pé do freio. Por favor, Joel, não seja covarde. Porque de covardiajá basta a que Patricia Amorim e seu marido tricolor fizeram com o Flamengo aote contratar para que nos sentíssemos presos à maldita noite de 7 de maio de2008.
Flamengo 3×3 Olimpia
15 de março de 2012 – Taça Libertadores da América
Estádio do Engenhão – Rio de Janeiro
Árbitro: José Buitrago
Flamengo: Paulo Victor, Galhardo, González, David Braz eJúnior César; Muralha, Luiz Antônio, Bottinelli e Thomás (Negueba); RonaldinhoGaúcho e Vagner Love. Técnico: Joel Santana
Olimpia: Martín Silva, Nájera, Adrián Romero, Enrique Meza eAriosa; Aranda (Zeballos), Sergio Orteman (Hobecker), Fabio Caballero eVladimir Marín; Luis Caballero e Maxi Biancucchi. Técnico: GerardoPelusso
Gols: Bottinelli aos 38 do 1º tempo; Ronaldinho Gaúcho(pênalti) aos 13, Luiz Antonio aos 18, Zeballos (falta) aos 31, Luis Caballero aos38 e Marin aos 42 do 2º tempo.

Um pequeno milagre e duas vitórias

Enquanto o Flamengo penava para fazer 1×0 no Emelec e atorcida vaiava Ronaldinho, a transformação mais importante do time passavaquase despercebida. Sem Airton, Willians e Renato Abreu, a bola foi mais bemtratada. Mesmo com Bottinelli claudicante como segundo volante a bola foi maisbem tratada, e a melhoria no tratamento a levou para os flancos, para osespaços certos, para a vitória magra, mas tranquila – depois de perder um golno início, o Emelec não ameaçou mais.
Welinton e seu talento para ser driblado

É primário: o time que arma melhor também se recompõe melhorquando perde a bola, eis que se bagunça menos quando sai para o jogo. OFlamengo de Luxemburgo era um desarranjo, uma disritmia, uma repartição públicade anedota, burocratizada pelo carimbo obrigatório de Renato Abreu. Não queJoel tenha feito algo para mudar, foi obrigado ao óbvio pelo infortúnio pessoaldos três cabeças-de-área-e-de-bagre que acabaram sendo a fortuna do time.

Com Bottinelli suspenso, o time foi mais escangalhado aindapara o Fla-Flu, a ponto de assistirmos a ressurreição de Kléberson. O horror seespalhou pelas redes sociais assim que foi confirmada a escalação do Penta.Ora, ninguém em sã consciência defende a titularidade de um jogador como Kléberson,já longe na curva descendente de sua carreira, mas era absolutamente certo queo jogo fluiria mais com ele do que com os botinudos que lhe antecederam.
Kléberson, mas pode chamar de Jason
O fato de Kléberson e Magal renderem mais do que seusconcorrentes não significa que são bons jogadores. Significa só que sãomelhores do que Renato Abreu e Júnior César. Nada demais, mas o time agradece.
Ronaldinho demonstrava um tanto mais de vontade até dar umacotovelada e uma solada no mesmo lance. Certo, o primeiro amarelo foiequivocado, mas ele poderia ser expulso só pelo segundo lance mesmo e estariatudo certo. Já falei de sua fraqueza mental, estado que compreende essasexpulsões esdrúxulas – foi assim contra Inglaterra em 2002, se você estiver compreguiça de ver outros exemplos neste link.
Só o que me importa, por enquanto, é o jogo de quinta-feira.Desprezo a Taça Rio e me preocupa a Libertadores. O grupo está embolado e umavitória contra o Olimpia permite ao Flamengo ir mais tranquilo para os doisjogos fora de casa. Para vencer o Olimpia será preciso jogar mais do que contrao Emelec, a julgar pelo que vimos na partida Olimpia 2×1 Lanús.
Talvez Joel opte pelo quadrado Luiz Antônio, Muralha, Bottinellie Ronaldinho, eis que a formação com três zagueiros se mostrou um risco contrao Emelec. González é bom e pode diminuir as deficiências de David Braz, masesperar que ele faça isso com Braz e ainda com o Welinton é atribuir-lhepoderes improváveis.
Meio na marra, o time vai ficando simples. Menospretensioso, mais funcional. Parece pouco, mas para quem começou o ano comAirton, Willians e Renato Abreu, é um pequeno milagre.
Flamengo 1×0 Emelec
8 de março de 2012 – Taça Libertadores da América
Estádio do Engenhão – Rio de Janeiro
Público: 27.826 pagantes (31.859 presentes)
Árbitro: Dario Ubriaco
Cartão vermelho: Marlon Jesús
Flamengo: Paulo Victor, Welinton (Deivid), González, DavidBraz; Léo Moura (Negueba), Muralha, Luiz Antônio, Bottinelli e Júnior César;Ronaldinho Gaúcho e Vágner Love. Técnico: Joel Santana
Emelec: Esteban Dreer, José Quiñónez (Carlos Quiñónez),Gabriel Achilier e Oscar Bagui; Pedro Quiñónez, Fernando Giménez, FernandoGaibor, Enner Valencia e Marcos Mondaini (Walter Iza); Luciano Figueroa (Vigneri)e Marlon Jesús .Técnico: Marcelo Fleitas
Gol: Vágner Love aos 3 do 2º tempo.
Flamengo 2×0 Fluminense
11 de março de 2012 – Taça Libertadores da América
Estádio do Engenhão – Rio de Janeiro
Público: 10.534 pagantes
Árbitro: Eduardo Cordeiro Guimarães
Cartão vermelho: Ronaldinho Gaúcho
Flamengo: Paulo Victor, Galhardo, González, David Braz eMagal; Luiz Antônio, Muralha (Rômulo), Kléberson e Thomás (Diego Maurício);Ronaldinho Gaúcho e Vágner Love (Deivid). Técnico: Joel Santana
Fluminense:
Diego Cavalieri,Jean (Lanzini), Leandro Euzébio, Anderson e Thiago Carleto; Edinho (Wallace),Diguinho, Souza e Wagner; Rafael Sobis (Samuel) e Rafael Moura. Técnico: AbelBraga
Gols: Ronaldinho Gaúcho (pênalti) aos 22 e Kléberson aos 24do 2º tempo.

Ronaldinho e a ordem das vaias

Quando uma multidão foi à Gávea recepcionar RonaldinhoGaúcho, tivemos a medida exata da nossa expectativa: sonhávamos com o jogadorque já foi o melhor do mundo. Havia, ali, também um orgulho por termos vencidouma batalha contra Palmeiras e Grêmio, sobretudo o Grêmio e seus dirigentesboquirrotos e suas caixas de som. “Agora eu sou Mengão”, disse ele, entredançarinas de funk, Vágner Love e uma orgulhosíssima Patrícia Amorim. Talveztenha sido a tarde de mais euforia na Gávea desde o tricampeonato de 1944.Vivíamos um sonho. O problema é que qualquer observador mais atento poderiaperceber que era um sonho de verão.
Quando Ronaldinho foi o melhor jogador do mundo, havia umsupertime jogando para ele. Um time que se deslocava para abrir espaços e criaropções de jogadas, ótimas opções, as melhores do mundo na época. Com espaço ebem escudado, Ronaldinho de fato fez por onde ser o melhor do mundo e escreveualgumas páginas douradas do futebol, como a estreia na Champions League em 2004contra o Milan, os gols em arrancada pela esquerda contra o Madrid em plenoBernabéu nos 3×0 de 2005, o golaço decisivo contra o Chelsea na Champions em2006 e muitos, muitos outros.
Mas ainda no Barcelona, Ronaldo foi criticado pelasnoitadas, pela forma física – chegou a erguer a camisa ao final de um jogo paramostrar que o Ronaldo gordo era o outro – e saiu da Catalunha sem grandecomoção, porque os blaugranas já aprenderam que sai um Romário e chega umFenômeno, que se vai para abrir espaço para Rivaldo que é sucedido porRonaldinho e ali já estava um certo Lionel, haja Camp Nou para tantos craques.Em Barcelona todos aprenderam a lição: Ronaldinho foi genial porque se criaramtodas as condições para isso, e o negócio foi espetacular para clube e jogador.
Favor vaiar primeiro a mulher de tricolor
Esse aparato que o Barça criou para Ronaldinho brilharneutralizou o maior defeito dele como jogador e personagem: a fraqueza mental.Explico-me. Ronaldinho, desde o Grêmio, sucumbe se esperam que ele seja líder.Não é e nunca foi líder de nada, nem do próprio destino como atleta. Ronaldinhotem talento para ser a estrela do espetáculo se tudo estiver montado para elebrilhar, mas não tem força mental para sacudir um time, para chamar todos ao jogoquando as coisas vão mal, para ser constante em alto nível. Em dias iluminadose contra times que deixam jogar, fará o que fez na Vila contra o Santos. Nomais das vezes, quando o pau cantar, vai se esconder na ponta esquerda.
E sabem do pior? Isso não é problema dele. Foi esse oRonaldinho que o Flamengo contratou. E poderia ser um bom negócio, desde quehouvesse um time capaz de oferecer as situações que ele precisa – tenho certezaque Ronaldinho brilharia no Santos, por exemplo, tabelando com Ganso e servindoa Neymar. No Flamengo, quando havia um jogador apto ao diálogo no meio, nãohavia um atacante decente. Agora que há um atacante decente, não há ninguém inteligentea seu lado na armação.
Quanto ao salário, não é problema dele. O negócio foianunciado como o mais vantajoso da história. Um parceiro bancaria quase tudo ea parte que caberia ao Flamengo seria facilmente suportada com ações demarketing. Ronaldinho não tem culpa de o Flamengo ser presidido pelo maridotricolor de uma vereadora e de o clube não ter um departamento de marketing.
Todos queríamos mais de Ronaldinho, mas o Flamengo não fezpor onde, assim como não fez a seleção brasileira em 2006. Esperar superação dojogador? Ele nunca foi disso. Em lugar nenhum. Jamais será. Ele joga demais noconforto do jogo solto, nunca no perrengue das bolas mal passadas por Willianse Renato Abreu e dos gols ridículos perdidos por Deivid.
Eu não vaiaria Ronaldinho no meio de um jogo da Libertadoresporque acho que não ajuda Vaiaria ao final, sim, mas desde que se respeitasse aordem de quem merece vaia. A primeira e mais estridente e com a tônica no umais acentuada é a para a presidente mulher de tricolor, a que traiu Zico, aque está afundando o Flamengo com sua gestão temerária. A segunda seria paraJoel dos Volantes Santana, que deveria ter sido declarado persona non grata em 2008. E só então vaiaria Ronaldinho, para queele não se esqueça de que Flamengo é Flamengo e sim, a gente leva a sério. Acomeçar pela ordem das vaias.