About Marcelo Espindola

Marcelo Espíndola é nostálgico, passional, controverso e loucamente Flamengo. É colecionador de vídeos e dono do blog Fla Museu. Apesar da paixão pela História rubro-negra, acha que o melhor ainda está por vir. Twitter: @celoespindola

Quando meninos viram homens

Nasci em uma família rubro-negra. Todos os 10 moradores de minha casa eram flamenguistas. Não tinha como eu não ser também, principalmente tendo um avô e um pai como os meus, cujo assunto preferido era futebol. Por isso, a rotina dominical era religiosamente seguida, fizesse chuva ou sol: à tardinha, todos os homens da minha casa vestiam o manto menos furados e iam ao Maracanã.

E eu me tornei um homem aos 7 anos de idade, no Brasileiro de 1981, mas precisamente no dia 5 de abril, no jogo Flamengo x Colorado. Ainda lembro o impacto que me causou a subida do túnel da arquibancada do Maracanã. A cada passo o barulho do Estádio ia aumentando e boquiaberto observei a imensidão do evento. Avistar a torcida e aquele gramado verde foi algo deslumbrante.

Lembro de minha inquietação ao notar que só ouvia o som do estádio e da minha insistência em perguntar: “Vô, cadê o narrador?” Passou um helicóptero: “Vô, cadê o narrador?” O jogo começou: “Vô, cadê o narrador?” (E pensar que hoje em dia mando o Galvão Bueno calar a boca!).
O jogo em si foi marcante também. Para quem não sabe, o Colorado rivalizava com o Atlético-PR e Coritiba no estado paranaense (em 1989, ele e o Pinheiros juntaram forças e formaram uma nova agremiação: o Paraná Clube). Vinte dias antes desse confronto no Maracanã, o Flamengo levou uma goleada de 4 x 0 no Couto Pereira. Além do caráter de revanche, a partida era decisiva para avançar de fase no campeonato brasileiro. Mais de sessenta mil pessoas foram ver esse encontro e, entre esses milhares, “euzinho da silva”.

O jogo foi dificílimo. Apesar do timaço do Flamengo jogar em casa, a equipe Colorada conseguia resistir às investidas rubro-negras e aplicava alguns sustos. Já no fim do primeiro tempo, silenciou a torcida ao fazer o seu gol, após um chute cruzado da direita, onde o atacante Aladim só teve o trabalho de escorar para o gol vazio.
Que sensação ruim… O primeiro gol que vi no Maracanã não foi do Flamengo. Meu avô aproveitou para tirar onda comigo. Chamava-me de pé frio e que não fez bem em ter me levado para um jogo tão importante. Pior que na mente de uma criança, isso soa como verdade. Veio o intervalo e meu avô já estava “de bem” comigo. Como era gostoso aquele picolé escorrendo pela mão!
Começa o segundo tempo, sorvete limpo no short e olhos vidrados no jogo. Nunca fui daquele tipo de criança em que o jogo corre solto e a desgraçada tá olhando pro céu, pro placar ou pra criança do lado. Ainda mais com o time perdendo e eu sendo o responsável pela derrota. O jogo transcorria tenso e a pressão empregada pelo Mengo estava implacável.

flacolorado

Perdíamos vários gols, e agonia ia aumentando… Mas quem tem Zico tem tudo! O Galinho estava encapetado e comandou a virada. Dois golaços em dois minutos, já no período final da partida.

Voltei em estado de euforia para casa. Caramba, ir ao maior estádio do mundo, ver o Flamengo vencer e ainda com gols do seu maior ídolo, não tem preço! No dia seguinte na escola, a marra tradicional de todo flamenguista estava incorporada em mim. Eu era o único da minha classe que já tinha ido ao Maraca. E os amiguinhos tiveram que aturar as minhas narrativas detalhadas do espetáculo que eu presenciara. Coitados…
Nesse mesmo ano, fui várias vezes ao Maracanã, inclusive no primeiro jogo da final da Libertadores, contra o Cobreloa (o jogo mais importante que vi no Maracanã, apesar de, na época, não ter noção do que a Libertadores significava). Nesse ano, o fanatismo já havia tomado conta de mim. A prova é que, semanas depois, na famosa final do “Ladrilheiro”, me recusei a ir a 1ª Comunhão de minha prima para poder ficar em casa, ouvindo a Decisão pelo rádio. Era a primeira vez que ficava em casa sozinho. Na semana seguinte, eu era um dos milhões de brasileiros acordados na madrugada para ver o Flamengo conquistar o Mundo, mas aí conto numa outra oportunidade.

petitHoje fiz questão de compartilhar com vocês o dia em que me tornei um homem de verdade. O dia que conheci a casa da Nação Rubro-negra e que nela o Mengão se impôs. Obrigado aos homens da minha casa (avô, pai e tios) que me tornaram flamenguista. Obrigado, Zico, por ter feito esse dia ainda mais perfeito. Obrigado, Flamengo. por ser tão maravilhoso! Obrigado a vocês que conseguiram chegar até o final do texto! Tomara que de alguma forma isso remeta a lembranças que, assim como a minha, nunca sairão de suas mentes.

 

Flamengo 2 x 1 Colorado
5 de abril de 1981 – Campeonato Brasileiro
Estádio do Maracanã – Rio de Janeiro
Público: 61.749
Árbitro: Márcio Campos Sales
Flamengo: Raul, Carlos Alberto (Fumanchu), Luís Pereira, Marinho, Júnior, Vítor, Adílio, Zico, Tita, Nunes, Ronaldo. Técnico: Modesto Bria.
Colorado: Joel Mendes, Sídnei, Marião, Caxias, Ivo, Newton (Sartóri), Peres, Marinho, Buião, Jorge Nobre, Aladim. Técnico: Geraldino Damasceno.
Gols: Aladim, aos 39 do 1º tempo. Zico aos 33 e 35 do 2º tempo.

 

Marcelo Espíndola
@CeloEspindola

O gringo mais querido da Nação

Petkovic talvez seja o maior ídolo rubro-negro do século XXI. Responsável por duas das maiores alegrias que tive na vida. Ele foi autor dos gols mais importantes da reta final do Campeonato Brasileiro de 2009 e do mítico gol de falta na final do Estadual de 2001 que o imortalizou na galeria de heróis rubro-negros. Certamente todo flamenguista lembra onde estava e como vibrou no momento daquela cobrança de falta contra o Vasco.

Tive a oportunidade de conhecer o gringo no Chopp da Nação, evento organizado pela rubro-negra Cida Gomes. Ao saber que iria realizar o sonho de estar frente a frente com o ídolo, me prontifiquei de preparar uma homenagem em vídeo, devidamente entregue em mãos, graças ao empenho do amigo Luiz Guilherme que viu meu nítido “sem jeito” ao me deparar com o cara. Nem deveria ficar assim, pois Pet foi só simpatia e atenção para os fãs que o cercava.

Foto Nayra Halm

Sei que o vídeo não está à altura da emoção que ele nos trouxe no decorrer de sua trajetória no Flamengo, mas foi feito de coração. Espero que vocês curtam e que possam matar um pouco das saudades que ele nos deixou.

 

Santo Fla-Flu de 1999

Para não cometer ofensa à história do Centenário clássico Fla-Flu, jamais ousaria escrever sobre ele. Nelson Rodrigues e Mário Filho se contorceriam dentro do caixão. Deixo com vocês apenas as imagens de um jogo inesquecível.

Em 20 de janeiro de 1999 foi organizado um Fla-Flu para comemorar a data do padroeiro da Cidade do Rio de Janeiro, São Sebastião. Seria o primeiro jogo da temporada e também a reabertura da geral do Maracanã, depois de alguns anos fechada. Durante umas duas semanas o evento foi amplamente divulgado nos veículos de comunicação e o amistoso ganhava ares de decisão de campeonato. Mais de noventa mil pessoas compareceram para ver o duelo do time de Romário contra o de Túlio Maravilha, principal contratação do time das Laranjeiras para disputa da série C daquele ano.

Apesar do calor de mais de 40 graus, as pessoas que compareceram ao caldeirão do Maraca não se arrependeram nem um pouco do calor escaldante. Foi um jogão, com direito a oito gols, pênalti defendido e consagração de Romário. Uma exibição de gala daquele que seria o time campeão Estadual daquele ano. Destaque também para a ótima participação de Caio e do centroavante Marcelo (aquele que faria quatro contra a gente pelo Madureira em 2007).

Nada mais intenso do que um Fla-Flu.

Nada mais lindo do que a torcida do Flamengo no Maracanã.

Flamengo 5 x 3 Fluminense
20 de janeiro de 1999 –Troféu São Sebastião
Estádio do Maracanã – Rio de Janeiro
Público: 93.415
Árbitro: Ubiraci Damásio
Flamengo: Clemer, Pimentel, Fabão, Ronaldo, Athirson (Marco Antônio), Jorginho, Cleison, Beto, Iranildo (Rodrigo Fabri), Caio (Marcelo Santos) e Romário. Técnico: Evaristo de Macedo.
Fluminense: Adilson, Paulo César (Flávio), Gelson, Emerson, Nonato, Roberto Brum (Leandro), Jorge Luís, Bruno Reis (Marco Brito),Róger (Magno Alves), Roni (Artur) e Túlio. Técnico: Carlos Alberto Parreira.
Gols: Romário, aos 25 e 30, Emerson aos 32, Caio aos 36 e 44, Roni aos 39 do 1º tempo. Magno Alves aos 44 e Marcelo Santos aos 46 do 2º tempo.

Mais uma vez flamengamos

A língua portuguesa é rica e vasta. Na última atualização do dicionário Aurélio, foram computados mais de 30 mil verbetes. E ano após ano são incorporados novos vocábulos ao nosso linguajar. Corre o risco de vermos na próxima edição desse conceituado dicionário o verbo flamengar. E viria com a seguinte definição: flamengar é a capacidade de entregar confrontos aparentemente decididos. Só na nossa história recente foram diversas as flamengadas. As derrotas para o América do México e Santo André; o empate com o Goiás em 2008, após estar vencendo por 3 a 0; empate com o Olímpia na Libertadores desse ano. Tiveram algumas flamengadas mais antigas como a derrota para o Bonsucesso em 1968, onde poderíamos empatar para sermos campeões da Taça GB; a derrota para o Serrano que nos arrancou o tetra estadual de 1980; empate com o Botafogo em 1989, que nos tirou a chance de liquidar o campeonato estadual daquele ano. Com certeza, vocês devem lembrar de outros micos históricos.

Apesar do time atual não me despertar mais nenhum sentimento nobre, muito menos confiança, resolvi comparecer ao duelo contra o Internacional. Só que depois que cheguei ao Engenhão, começou a bater depressão. O Estádio é bonito, mas estranho demais. Não tem acústica, o gramado fica longe da arquibancada e é desconfortável. Com ingressos caros, a classe média é maioria dos que comparecem aos jogos. E isso é prejudicial demais a um clube de massa como o nosso. Não me recordo a última vez que ouvi no Estádio o tradicional grito de Meeeeeeeeengo. Por que as Torcidas Organizadas só cantam músicas com gosto duvidoso e esquecem de gritar isso? E o cante comigo Mengão? Por essas e outras, visitar o Engenhão me entristece cada vez mais.

O jogo em si foi esquisito. Abrimos 2 x 0 em poucos minutos e parecia que íamos dar uma enfiada histórica na gauchada. Não pelo futebol apresentado pelo nosso time, mas pela fragilidade da defesa colorada. Engraçado que em nenhum momento, mesmo após abrir vantagem, a torcida empolgou. Ninguém mais confia no time do Joel e seus comandados. Isso ficou gritante quando o Inter diminuiu o placar ainda no primeiro tempo. Muitos palavrões já eram balbuciados entre os torcedores.

Veio a segunda etapa e logo no início, Love acalmou a torcida, fazendo 3 x 1. Até eu mesmo, que sou pessimista toda vida, já estava imaginando uma goleada. Como sou tolinho… Tomamos o empate e mais uma vez ficamos atônitos no estádio. Não se jogou mais e muito menos se ouviu incentivos. Não tínhamos mais força. A apatia tomou conta até de nossa torcida. Acabou o jogo e nenhum protesto. Uma vaia apenas. E o Engenhão foi-se esvaziando silenciosamente, triste e melancólico.

É… o Flamengo flamengou de novo.

Flamengo 3 x 3 Internacional
26 de maio de 1992 – Campeonato Brasileiro
Estádio: Engenhão – Rio de Janeiro
Público: 14.238
Árbitro: André Luiz de Freitas Castro
Flamengo: Paulo Victor, Léo Moura, Welinton, González e Magal; Aírton (Amaral), Luiz Antonio (Renato Abreu), Kleberson e Ibson; Ronaldinho Gaúcho (Deivid) e Vagner Love. Técnico: Joel Santana.
Internacional: Muriel, Nei, Rodrigo Moledo, Indio e Fabricio; Elton, Guiñazu, Josimar (Maurides) e Dátolo; Gilberto (Marcos Aurélio) e Dagoberto (Bollati). Técnico: Dorival Junior.
Gols: Airton, aos 8, Ronaldinho Gaúcho, aos 16 e Gilberto, aos 33 do 1º tempo. Vagner Love, aos 3, Fabricio, aos 21 e Dátolo 24 do 2º tempo.

Vamos reviver?

Saudades…
De ver o Flamengo jogando no Rio
De ver o estádio lotado
De um maestro comandando o meio campo
De ver o Zinho brilhando pelo rubro-negro
De sapecar o Internacional
De ver a torcida feliz

Será que hoje iremos reviver todas essas emoções?

Flamengo 2 x 0 Internacional
31 de maio de 1992 – Campeonato Brasileiro
Estádio do Maracanã – Rio de Janeiro
Público: 79.606
Árbitro: Márcio Resende de Freitas
Flamengo: Gilmar, Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Júnior Baiano, Piá, Uidemar, Marquinhos, Júnior (Júlio Cesar Imperador), Zinho, Nélio e Gaúcho. Técnico: Carlinhos
Internacional: Fernadez, Pinga, Célio Silva, Daniel, Célio Lino, Simão, Marquinhos, Zinho (Leco), Elson, Lima (Luiz Fernando), Gérson. Técnico: Antônio Lopes
Gol: Júnior, aos 37 do 1º tempo e Zinho, aos 9 do 2º tempo.

Parecidos, mas nem tanto…

Geralmente rubro-negros se respeitam. Cada um torce pelo seu time, mas quando não se enfrentam, querem o sucesso do “co-irmão” em seus respectivos campeonatos estaduais. Mas isso não se aplica ao duelo Flamengo e Sport. Existe um ódio mortal entre as torcidas e dirigentes. Tudo por causa do Campeonato Brasileiro de 1987. Nem vou discutir pela enésima vez sobre aquela conquista. Disputamos a 1ª divisão e eles a 2ª, então já sabemos quem é o campeão.
Jogar na Ilha do Retiro sempre foi duro, mas não chega a ser nenhuma façanha derrotar o falso rubro-negro. Inclusive já ganhamos deles duas vezes com o mesmo placar, com gols quase idênticos e com o camisa 11 sendo o autor em ambos. Romário decidiu o jogo pelo Campeonato Brasileiro de 1999 e Edílson Capetinha foi o carrasco pela Copa do Brasil 2003.

Sport 0 X 1 Flamengo
21 de agosto de 1999 – Campeonato Brasileiro
Estadio da Ilha do Retiro – Recife
Publico: 30.520
Árbitro: Luciano Augusto Almeida
Flamengo: Clemer, Pimentel(Beto), Luís Alberto, Fabão, Athirson, Jorginho, Leandro Ávila, Leonardo Inácio(Rodrigo Mendes), Fabio Baiano(Maurinho), Romario e Leandro Machado. Técnico: Carlinhos
Sport: Albérico, Sandro Blum, Marcio Goiano (Jorge Ramos), Sangaletti, Edson Canhão, Saulo, Emerson, Juninho Petrolina, Reinaldo, Wallace (Nildo), Leonardo (Leandro Tavares). Técnico: Ricardo Gomes
Gol: Romario, aos 43 do 1º tempo.

Sport 0 X 1 Flamengo
21 de maio de 2003 – Copa do Brasil
Estádio da Ilha do Retiro – Recife
Árbitro: Héber Roberto Lopes
Flamengo: Julio Cesar, Luciano Baiano, Valdson, Andre Bahia, Athirson, Fabinho, Jonatas(Fabiano Eller), Fabio Baiano(Igor), Felipe, Edilson(Fernando Baiano), Jean. Técnico: Nelsinho Batista
Sport: Maizena, Gaúcho, Silvio Criciúma, Juninho Goiano, Carlinhos, Ataliba, Fernando César (Djalma), Cleber Santana, Nildo (Fabinho), Júnior Amorim (Ricardinho), Clayson Rato. Técnico: Hélio dos Anjos
Gol: Edilson, aos 39 do 1º tempo.

Que venha mais um duelo e que se possível o nosso camisa 11 resolva o jogo mais uma vez. Se o gol puder ser igual, melhor ainda. E no confronto de hoje, o que acha que vai acontecer? Arrisquem seus palpites.

 

Uma noite 100sacional

Existem momentos em gostaríamos que perdurassem para sempre. Tive essa sensação ao participar do evento Papo Rubro-negro, homenagem ao centenário do Futebol do Clube, realizado na sede social da Gávea e organizado pelo Museu do Flamengo.
De cara, foi impactante chegar a um ambiente festivo e recheado de emoção. Uma verdadeira viagem no tempo onde era possível admirar camisas históricas, troféus e fotos, além da presença de jogadores atuais, outros das divisões de base e ex-jogadores.

Foi difícil fingir naturalidade com o que presenciava, aliás, a tentativa de controlar a emoção durou menos de 10 minutos. Virei criança e, sem cerimônia, comecei a tietar meus ídolos. De cara fui falar com o Maestro Júnior. Lembrei da minha amiga Marcellinha que sempre sonhou conhecê-lo. Sei que ela merecia esse momento mais do que eu, mas o Capacete foi um dos meus heróis e não poderia sair dali sem uma foto. Depois foi a vez de Cantareli, Rondinelli, Manguito, Vítor, Renato Carioca

Mais adiante, avistei Silva Batuta. Não deixei escapar a oportunidade de abraçar o camisa 10 dos anos 60. Ídolo da massa, dono de uma habilidade ímpar e um canhão nos pés. Após a foto e agradecimento pela sua carreira, pedi para ele visitar meu blog para rever alguns dos seus gols, mas me olhou com uma cara típica de quem não é habituado com essa “modernidade”. Outro momento marcante foi o papo com Paulo Henrique. Meu amigo Renato Croce, do blog FlaManolos, quase chorou ao ouvir dele que, em sua época de jogador, assinou 9 contratos em branco com o Mengo. Simplesmente era apaixonado pelo clube e o dinheiro era o menos importante. Esses caras eram absurdamente Flamengo.
Deixei de tirar muitas fotos e de conversar com outros jogadores como Nelsinho, Gilmar Popoca, Jorginho (meio campo que jogou entre 1997 e 2003), pois não sabia o nome de muitos que estavam os acompanhando, e não achava justo chamar alguém da roda de bate-papo para tirar foto apenas com o mais famoso. Também foi comoventemente triste a quantidade de ex-jogadores anônimos e esquecidos. Senti-me mal, pois dava para perceber o quanto queriam um pouco de atenção e reconhecimento, mas minha falta de memória e desleixo também contribuiu para esse descaso.

Fiquei muito feliz com dois jogadores do time atual, Luis Antonio e Renato Abreu. O tempo todo com sorriso nos rostos, brincando entre eles e com as crianças. Conversavam com qualquer um que os procuravam e em outros momentos admiravam os vídeos que eram exibidos sobre os títulos rubro-negros. Sabiam exatamente a importância do evento e a dimensão do amor de todos pelo Flamengo. Assim como eu, foram os últimos a sair, praticamente expulsos pelos funcionários que já recolhiam o material da exposição.

Foi uma noite memorável! Salão lotado de fãs, de ídolos e história. Mais uma vez agradeço por ter nascido Flamengo e feito deste clube a razão de minha vida. Momentos como esses, mal contados nas linhas acima, fazem tudo valer à pena. O esforço do dia a dia fica minimizado e, revigorado, sigo cantando ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro.

Gigante adormecido

Um dia após a nossa lamentável eliminação para o Vasco, como é feriado de São Jorge aqui no Rio de Janeiro, tirei o dia para dar aquela faxina na casa. Não queria saber de noticiário esportivo, nem mesmo me envolver em discussões fervorosas sobre o futuro rubronegro. Resolvi iniciar a arrumação da bagunça por onde guardo revistas, recortes e jornais sobre o Flamengo. Meu projeto de arrumação acabou ali mesmo. Comecei a folhear os jornais e fiquei relembrando notícias e vitórias memoráveis. A raiva (sempre passageira) que tenho do Clube que amo nos momentos de derrota, esfarelava-se a cada notícia lida. Cara, como é bom ser Flamengo!

Mas ao me deparar com o jornal O Globo do dia 07 de dezembro de 1981, fiquei radiante. Era o dia seguinte da decisão do Estadual daquele ano. O famoso jogo do Ladrilheiro, onde sapecamos o Vasco.Trinta anos depois, vejam como as segundas-feiras são tristemente opostas. No jornal, a alegria do título e de ter derrotado o seu maior rival. Na realidade de hoje, a tristeza de ter no time um bando de pernas de pau, comandados por um técnico bisonho e uma Presidenta patética. Nesse momento fiquei triste de novo.

Mas aí veio a página seguinte que fez meus olhos lacrimejarem. Uma notícia sobre a preparação do Liverpool para a final do Mundial Interclubes, seis dias depois. Embarquei na notícia e comecei a viver a semana daquela decisão. Estava a poucos dias do jogo mais importante da história do Flamengo. Coração deu uma acelerada e me dei conta que estava em 2012. E pensei em como seria bom que algo parecido acontecesse com a gente de novo.

Esse breve texto não tem nada a ver com nada, e talvez nem deva ser oportuno… Deu vontade de escrever, só para tirar um pouco da angústia do meu peito. Para aqueles que não entendem meu lado corneta e mal humorado com o time atual, esses recortes talvez dêem a dimensão do que espero sempre do nosso clube. Desculpe a chatice, mas já fomos grandes. E quando falo grande, digo gigaaaaaante. E um gigante não mata sua fome com migalhas e nem pode encolher ano após ano. Temos que fazer algo, por favor! Está na hora de despertá-lo.

A arte da vingança

A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena. Quem nunca ouviu essa frase do lendário seriado Chaves? Uma frase carregada de bons valores e de sentimentos nobres. Mas que se foda o Chaves e a pureza da alma! Com o Mengão não tem essa não. Gostamos de nos vingar, com requintes de crueldade. Vamos a alguns exemplos da desumanidade rubro-negra:

Botafogo nos ganhou por 6 X 0 em 1972 e nos vingamos em 1981 e aplicamos os juros em 1985. Palmeiras nos eliminou em 1979 e no ano seguinte foi o nosso troco. Vasco tirou onda com o gol do título de 1988 de um tal Cocada e a nossa desforra dura até hoje: nunca mais ganharam uma final da gente.

E o jogo que recordaremos hoje é sobre outra vingança à nau portuguesa. Nesse mesmo ano de 1988, Flamengo e Vasco se enfrentaram seis vezes. Vencemos a primeira partida e perdemos as outras cinco, para delírio dos vascaínos que entoavam a todo canto que haviam feito a quina e blá, blá, blá… Todas essas derrotas foram em um intervalo de tempo de quatro meses.

Incomodava-me demais essa marca negativa, ainda mais para um time de Portugal. Mas nossa vingança tardaria, mas chegaria. Ela começou a acontecer no ano de 1990. Vencemos o Vasco por 1 x 0 pelo Campeonato Brasileiro daquele ano, com gol do novato Nélio. A segunda vitória foi no Brasileirão do ano seguinte, que foi antecipado para o primeiro semestre. Vitória acachapante por 3 x 0. Depois veio a Taça Estado do Rio de Janeiro, onde ganhamos por 2 x 0, com dois gols de Marcelinho. A quarta vitória foi na Taça Guanabara, de virada por 2 x 1, com o centroavante Gaúcho tirando onda de Seu Boneco da escolinha do Professor Raimundo.

Finalmente chegava o jogo que concretizaria a vingança. A partida valia pela Taça Rio de 1991 e o Flamengo vinha fazendo uma campanha impecável no segundo turno, disputando ponto a ponto com o Botafogo a conquista da competição. Esse jogo também foi marcado pela inauguração do primeiro bandeirão do Flamengo, confeccionado pela Torcida Jovem. Ainda está viva em minha memória, a imagem daquela enorme bandeira sendo desfraldada para delírio do lado rubro-negro e silêncio da atônita torcida vascaína.

Além da motivação pela liderança e da oportunidade de vingar-se três anos depois, enfrentar o baiano Bebeto sempre era um ingrediente a mais para o clássico. O jogo teve amplo domínio do Flamengo, que possuía um timaço. Gaúcho e Júnior estavam no auge e a torcida estava em sintonia com a evolução do time. Verdadeiro espetáculo na arquibancada, com coreografias sincronizadas e alegria incontrolável. À medida que os gols saíam e a forra se concretizava, o êxtase ia tomando conta da atmosfera rubro-negra. A sensação de alívio ao tirar aquele incômodo fardo era sublime. A quina agora era nossa e ainda mais bela, pois não foi feita em jogos subsequentes, onde uma má fase explica, e sim em quatro torneios diferentes. A vingança foi digerida friamente, assim como o ditado sugere.

Hoje pela Taça Rio 2012, mais um clássico dos milhões agita as torcidas. Se o Bacalhau for esperto e ligado na história sabe que logo mais pode ser de novo vítima da envenenada alma rubronegra. Porque Deivid está sinistro, com sede de revide e também não está nem aí pra lição de moral de seriado mexicano.

Flamengo 2 x 0 Vasco da Gama
24 de novembro de 1991 – Campeonato Carioca
Estádio do Maracanã – Rio de Janeiro
Público: 42.734 pagantes
Árbitro: Claudio Vinícius Cerdeira
Flamengo: Gilmar, Charles Guerreiro, Gotardo, Júnior Baiano, Piá, Uidemar, Júnior, Nélio (Marquinhos), Zinho, Paulo Nunes (Fabinho) e Gaúcho. Técnico: Carlinhos
Vasco: Carlos Germano, Dedé, Torres, Missinho, Cássio, França, Luisinho, Bebeto, Sorato (Mauricinho), Bismark, William. Técnico: Antonio Lopes
Gol: Zinho, aos 36 do 1º tempo e Fabinho, aos 10 do 2º tempo.

Recordar é viver: Flamengo e Americano já decidiram um campeonato

Flamengo e Americano se preparam para mais um encontro pelo Campeonato Carioca. O time campista já viveu dias melhores, aliás, a fase atual é a pior de sua história. Pela primeira vez deve ser rebaixado para a segunda divisão estadual. Enfrentar o Americano nunca foi parada fácil, principalmente quando o jogo era realizado em Campos. Quando você fazia previsões dos possíveis resultados no campeonato, o jogo contra eles sempre vinha com uma interrogação ao lado, pois tudo podia acontecer no escuro campo do Godofredo Cruz. O duelo de hoje pelo Campeonato de 2012 em nada lembra alguns confrontos passados e a vitória flamenguista, apesar do futebol apresentado, parece favas contadas.

Relembraremos hoje o dia em que decidimos um campeonato com a equipe campista. O torneio era a Taça Estado do Rio de Janeiro de 1991. Em tempos de calendário inchado, a Federação criou esse torneio, que era divido em duas frentes. Os times da Capital disputavam o título em um grupo e no outro os times do interior. No grupo da Capital, Flamengo foi o campeão após enfrentar Campo Grande, Olaria, Fluminense, Botafogo e Vasco. Na semifinal despachamos o América-TR enquanto o Americano eliminou o bom time do Botafogo.

A única semelhança com esse confronto do ano de 2012 é o desinteresse do público. Apesar de uma decisão de campeonato, pouca gente foi ao Maracanã naquele dia. Com os Jogos Pan Americanos de Havana acontecendo paralelamente, as atenções estavam divididas. Além disso, os dirigentes já não entendiam que torneios como aquele eram apenas caça-níqueis.

O rubro-negro havia ganho o primeiro jogo da decisão em Campos por 1 x 0 e vinha para a segunda partida com a vantagem do empate. No banco, Luxemburgo era o comandante. No campo, o grupo era o mesmo que venceria o Estadual daquele ano e o Brasileiro do ano seguinte. Os experientes: Gilmar, Gotardo, Charles Guerreiro, Júnior, Zinho e Gaúcho e a garotada vindo da base: Fabinho, Junior Baiano, Rogério, Piá, Marquinhos, Marcelinho, Djalminha e Paulo Nunes. O jogo transcorreu de maneira tranqüila e vitória por 3 x 0 só veio corresponder o favoritismo. O destaque absoluto daquela decisão foi o Maestro Júnior. O craque estava completando 759 jogos pelo Flamengo e mostrava que ainda estava no auge da técnica e esbanjando vigor físico. Era o ídolo maior de uma torcida que ainda se acostumava a não ter mais o Galinho em campo.



Foi um título de pouca repercussão, mas de extrema significância para consolidação de uma geração. Ganhar títulos é sempre importante. Infelizmente nesse primeiro semestre só nos restou o Estadual. Então temos que nos agarrar ao carioquinha mesmo. Nos resta a esperança de estarmos presenciando a formação de uma base campeã, assim como em 1991.

Flamengo 3 x0 Americano
10 de agosto de 1991 – Taça Estado do Rio de Janeiro
Estádio do Maracanã
Público: 8.114 pagantes
Árbitro: Claudio Cerdeira

Flamengo: Gilmar, Fabinho, Júnior Baiano (Rogério), Gotardo, Piá, Charles Guerreiro, Júnior, Marquinhos (Marcelinho), Zinho, Paulo Nunes e Gaúcho. Técnico: Vanderlei Luxemburgo

Americano: Zé Luís, Serginho, Paraju, Paulo Renato, Edivaldo Gomes, Carlos, Haroldo, Branco, Amarildo, Gilmar, Edivaldo II. Técnico: Flávio Almeida

Gols: Gaúcho, Zinho e Júnior.

Marcelo Espíndola
@FlaMuseu