O fedor da derrota

So Smells Defeat – George Grosz (1937 – Óleo)

Essa semana fui ao museu ver uma exposição do ilustrador alemão George Grosz. Lá vi um quadro que me fez pensar no Flamengo. Nesse mal-cheiroso Flamengo com o qual temos que nos confrontar hoje em dia. E a imagem me incomodou. E olha que o artista, contemporâneo aos primeiros passos do futebol rubronegro, retratou os horrores da primeira e segunda guerra mundial. Mas o que me incomodou mesmo foi essa imagem. Talvez porque as guerras já acabaram e fazem parte do passado. Diferente do Flamengo que tem suas feridas abertas, expostas para todo mundo ver na TV na hora do almoço e do jantar.

Observei o quadro sabendo que tínhamos um Fla-Flu centenário para celebrar. Não sou supersticioso, isso é coisa de botafoguense. Mas pude sentir o cheiro da derrota que viria domingo. Diga-se de passagem, mais uma bola fora do calendário da CBF. Afinal, já que fez o Flamengo jogar tantos sábados, o que custava colocar o clássico no dia do seu centenário: sábado, dia 7 de julho??? Mas é provável que os deuses do futebol me quisessem poupar de um desgosto no dia do meu aniversário.

Na mesma semana que descobriram a “Partícula de Deus” houve quem descobrisse também uma sub-atômica melhora no time do Flamengo. Ora, deixamos de perder a posse de bola para um time como o Atlético Goianiense e dominamos o meio campo contra o Fluminense. Que ilusão. O Abel, que pelo jeito odeia a história do centenário Fla-Flu, fez questão de dar a bola de presente pro Flamengo e contava com uma pixotada da zaga rubronegra pra ganhar o clássico. E veio logo num erro do Gonsalez, o gringo que chegou pra arrumar nossa zaga. Numa jogadinha pra lá de manjada, só ele não sabia que ia ser gol né? E tinha que sair dos pé do Thiago Neves, que mal apareceu no jogo. Apenas um pequeno retrato de Patrícia e Cia e sua capacidade de atirar bumerangues de merda em todas as direções. E o Flamengo do Joel?

O Flamengo, vestido de luto, com calções negros, e dois logotipos horrorosos no manto sagrado, para celebrar a incompetência, seguiu o roteiro traçado pelo Abel. Tocou a bola de lado, sem criar perigo e esperou a derrota. 100 anos atrás quando o os dois times se enfrentaram pela primeira vez nas Laranjeiras não se havia inventado ainda os técnicos retranqueiros. O responsável por escalar o time era o capitão do time. No caso o pioneiro Alberto Borghert, que saiu do Fluminense e fundou o nosso futebol centenário.

Os times se armavam no anacrônico e romântico 2-3-5.

Fluminense:
Laport; Bello e Maia; Leal, Mutz e Pernambuco; J. Calvert, E. Calvert, Berhucan, Bartholomeu e Oswaldo.

Flamengo: Otto Baena; Píndaro e Nery; Cintra, Gilberto e Gallo; Bahiano, Arnalgo, Amarante, Gustavo e Borghert.

Na Gazeta de Notícias fariam a resenha do match disputado no ground da Rua Guanabara, nas Laranjeiras.

“O jogo foi dos melhores a que temos assistido e, com surpresa geral, o Fluminense derribou o seu competidor por 3 goals a 2. O Flamengo não esteve nos seus melhores dias, tendo o seu jogo, em conjuncto, deixado muito a desejar. O ataque não foi dos melhores e emos que, as contínuas modificações que nelle operaram, foram mais prejudiciais do que aproveitaveis; mencionamos, todavia, Arnaldo, que muito se esforçou…”

“Dos halves mereceu especial destaque, pela sua brutalidade e nenhum jogo, o Sr. Gilberto, que até segundos nos parece, foi chamado à ordem pelo juiz.”

Sobre o ataque do Flamengo o Jornal do Brasil faria a seguinte análise:

“A linha de forwards esteve infeliz, Amarante e Borghert marcadíssimos pouco fizeram e Gustavo nunca o vimos jogar tão mal. Arnaldo foi o melhor da linha. Apesar da sua pouca edade fez passes precisos e marcou admiravelmente o primeiro goal, varando em uma escapada a linha de backs do Fluminense. Bahiano esteve regular como center-forward e pensamos que Arnaldo nesse lugar faria muito mais.”

Qualquer semelhança com o jogo de ontem é mera coincidência. O que o Flamengo de 1912 aprendeu foi que não bastava meia-dúzia de campeões para armar um time. Era preciso muito trabalho.

Trabalho que não vemos na Gávea. Basta lembrar que o último Fla-Flu foi em março. Apesar de termos ganho de 2 a 0 tampouco tínhamos nada a comemorar. E o fatídico empate com o Olímpia, que viria a seguir, não deixa dúvidas quanto a isso. O Flu veio com time reserva por causa da Libertadores e o Flamengo entrou com Paulo Victor, Rafael Galhardo, Marcos Gonzalez, David, Magal, Muralha (Romulo), Luiz Antonio, Kleberson, Thomas (Diego Mauricio), Ronaldinho Gaucho, Vagner Love (Deivid). Apesar do gol de pênalti do Ronaldinho Gaúcho, o primeiro em clássicos, ele acabaria expulso de maneira ridícula. E há quem diga que o Flamengo sente sua falta. De lá pra cá demos de presente Galhardo e David, e mandamos pra geladeira Muralha, Romulo (o queridinho do Joel) e Thomas. E ainda liberamos o Kleberson (pseudo-herói daquele jogo) e abduzimos o Deivid, talvez pra nos livramos dos milhões que devemos a ele. Se você vê alguma gestão de elenco nisso tudo me diz que vou te inscrever pro prêmio Nobel de Física.

Ah, sim! Mas veio o Ibson! O grande xodó da presidente, Patrícia Amorim. Que não jogou porcaria nenhuma ontem e já entrou na mira da imprensa e o “grande bombeiro” Joel Santana. Mas criticar o Ibson, é complicado, né? É mais fácil bater no Botinelli, que chutou duas bolas na lua e dizer que ele é o argentino mais sem sangue que existe. Depois disso a gente pede o Riquelme. Que carajo, Riquelme! La concha de tu hermana! Riquelme es un pelotudo! Me chupa un huevo y la mitad del otro!

Um garoto de 17 anos vai à fogueira e sai mais cascudo.

Vejam só o problema não é perder. Mas fazer apologia à derrota. Sim porque ao contrário do que o Joel Santana delira, não há nada de louvável nessa derrota. O Flamengo não jogou como o Barcelona. Os garotos foram entregues às feras. É um absurdo colocar Adryan e Luiz Antônio fora de posição e tendo que resolver. Ibson? Fora da posição. Botinelli, idem. Matheus? Na fogueira… Ora, logo logo o papai Joel vai por o Neguebinha no gol. Pobres das crias do urubu que são obrigados a comer a pior parte da carniça.

Mas o que mais me revolta é o Joel dizer que o Flamengo jogou bem. Como assim?! Zinho que se cuide, o Joel já está travando uma guerra pra receber a multa dele. Só pode ser isso. Só levamos perigo ao gol deles com uma cabeçada do Adryan, outra do Arthur Sanches (quem?), e um chute do Canelada. Meu amigo, se tivemos a bola durante quase 90 minutos isso me parece muito pouco. Quem vê qualidade nessa derrota que assine um atestado de mediocridade. Porque no Flamengo, meu amigo, devíamos odiar derrotar hediondas como essa. Como com certeza odiaram a derrota Alberto Borghert e cia pro clube que deixaram, cem anos atrás! Mas é notório que o Joel está mais vivo do que morto. E nós estamos loucos pra comer os restos dele. Claro, porque nunca atacaríamos a mamãe urubu que, com seus altos vôos de incompetência, nos condenou a mais vil das misérias: a mediocridade.

Fluminense 1 X 0 Flamengo

Local: Estádio João Havelange, Rio de Janeiro
Data: 8 de julho de 2012 (Domingo)
Árbitro: Wagner Magalhães (RJ)
Assistentes: Dibert Pedrosa (Fifa-RJ) e Rodrigo Joia (Fifa-RJ)

Cartão Amarelo: Fred, Deco, Bruno e Carlinhos (Fluminense); Marcos González, Ibson, Botinelli (Flamengo)
Gol: Fluminense: Fred, aos dez minutos do primeiro tempo

Fluminense: Diego Cavalieri, Bruno, Gum, Anderson e Carlinhos; Edinho, Jean, Deco (Valencia) e Thiago Neves (Wagner); Wellington Nem e Fred (Samuel)
Técnico: Abel Braga

Flamengo: Paulo Victor, Luiz Antonio, Marllon, Marcos González (Arthur Sanchez) e Magal; Amaral (Matheus), Renato Abreu, Ibson e Bottinelli; Diego Maurício (Adryan) e Vagner Love
Técnico: Joel Santana

PS: Os textos de jornais sobre o Flamengo de 1912 foram extraídos do livro “Uma Viagem a 1912 – Surge o Futebol do Flamengo” de Marcelo Abinader.

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2 thoughts on “O fedor da derrota

  1. É Triste mas são verdades q temos q concordar, o único ponto positivo pra mim foi novamente o Adryan, que é “inqueímavel”, entrou no segundo tempo e mesmo jogando como atacante fez algumas belas jogadas, quase outro gol e o melhor não fugio do pau. Mas esse time só tem esperança de melhora sem o JoHell. SRN