Recordarei o passado quinze de Março, uma quinta-feira, como um dos dias mais boleiros da minha vida. Desses que ficam marcados na pele. Estava tuitando com amigos rubro negros quando vi que Llorente tinha marcado um gol contra o Manchester. Liguei na hora tv e vi o show do Athletic Bilbao do Loco Bielsa encima dos Reds. A Espanha inteira estava vibrando via twitter com aquele jogo.Vi um vibrante time vestido de vermelho, branco e negro, com uma torcida alucinada, com belo toque de bola, muita raça, despachando com propriedade um time inglês. Chegaram logo ao segundo gol e podiam ser uns três, quatro… Só que o terceiro gol dos bascos não veio e Wayne Rooney descontou com um golaço. Faltavam 10 minutos. Pensei: ih rapaz, o time inglês vai crescer agora.
No primeiro jogo pelas oitavas de final da Europe League os rojiblancos tinham despachado o atual vice-campeão europeu com um histórico 2-3 em pleno Old Trafford. Se fizessem dois gols os ingleses podiam levar a disputa pra uma épica prorrogação. Só que os bascos não não deram chance alguma ao Manchester, e Bilbao se transbordou numa imensa “kale borroka” festiva e pacífica.De todos os cantos do mundo, sinais de admiração pelo jogo daquele Athletic ousado, lutador, trabalhador. Admiração pela filosofia do obcecado Marcelo Bielsa, nacido em Rosário, ex-jogador e técnico do “rojinegro” Newell’s Old Boys, e possivelmente um dos professores de Pep Guardiola. Admiração pela raça dos seus soldados: Llorente, Muniain, Iraola, Ander Herrera… Em um país onde reina o bipartidismo de Barça-Real Madrid ver um time formado só por bascos, navarros e riojanos chegar a tal feito era motivo de orgulho para qualquer amante do bom futebol. Por outro lado, sir Alex Ferguson teve que engolir a própria arrogância depois de ter reconhecido que não havia estudado o adversário.
Que bonito ver aquela festa na Catedral, casa do Athletic, um verdadeiro caixão que reverbera os piores pesadelos dos adversários, arquétipo dos quadrados estádios castelhanos, do Bernabéu à Bombonera. Já o Engenhoca é um escorredor de macarrão hi-tec, com seu jeitão de nave espacial espatifada sem engenhosidade, por onde se infiltram nossos sonhos e escoam nossos gritos. Isso quando nossos gritos conseguem a façanha de chegar ao estádio, claro. Esse enorme monumento ao mal feito só podia ter o nome de João Havelange e ser (mal) gestionado pelo Foguinho.
Ver a Catedral lotada me deu uma saudade eterna ao Maracanã que eu ajudei a lotar em 1992 e que, desde então, só foi encolhendo. Nosso Coliseu torturado, roubado, estuprado, assassinado, dissecado e empalhado, que a cada dia assombra e indigna os craques do passado. O dia que descobrirmos que estamos órfãos do nosso querido estádio e que ainda por cima, pagamos caríssimo a conta do assassinato, será a hora de dar licença a um Justin Bieber da vida ou às preliminares de luxo chamadas Olimpíadas. Parece que foi na Bélgica, quando fizeram uma grande reforma urbanística no come que inventaram esse negócio de pegar um prédio velho e reformar por dentro deixando só a fachada. Daí vem a expressão “de fachada”. Por isso na Bélgica chamar alguém de arquiteto é um insulto. E o Maracanã do futuro é de fachada. Já dizia minha vó: por fora bela viola, por dentro pão bolorento.
Mal terminou o jogo e fui correndo jogar uma pelada num torneio com um time de médicos disposto a dar o sangue pela vitória. É um time é tão bom que se chama Esfínter de Milanus. Acho que se enfrentássemos o pequeno Margatania seríamos goleados.
Perdíamos por 1-0 mas conseguimos segurar bem o primeiro tempo. No começo do segundo uma bola foi ao alto dentro da área. Eu corri para dominar com o peito e tentar nosso primeiro chute a gol. Entrei numa máquina de lavar. Quando saí estava deitado do chão, minha cabeça doía bastante e meu supercílio sangrava. Só pude imaginar o que tinha acontecido quando vi um companheiro meu também estendido no chão. KO.Perdemos, como sempre (6-1), e levei um ponto na cabeça para não esquecer a lição. Não adianta nada vontade (ou ansiedade) sem a mínima coordenação tática e motora. Daí fiquei acordado até as duas da manhã apesar de cansado, chateado, ferido.
O que eu vou fazer se vivo o futebol dos joelhos à cabeça?Mal começa o jogo e o locutor argentino da Fox Sports mandou essa: aposto que o Olímpia ou empata ou ganha o Flamengo. Que filho da mãe. Imagina o que ele recebeu de gentilezas pela internet. Depois ele soltou um dado que eu ignorava: o Flamengo nunca ganhou do Olímpia pela Libertadores. Sério? Como assim somos fregueses do Olímpia? Os caras tem mais Libertadoes que a gente e vamos pro jogo como se tratassem de um Resende paraguaio?
Mas o que importa é o carioca pra livrar a barra né? Estranho, não foi esse mesmo técnico que riu do gordinho Cabañas? Pois em campo também vi aquele mesmo Flamengo que tomou de 4 no Engenhão do Universidade de Chile. Sufocado, estranho, mole, desatento, dominado. Isso só mudou com uma jogada indidual do Vágner Love e conclusão precisa do Botinelli. Não foi por acaso, pois são raros dois raros jogadores do nosso elenco que chamam a responsabilidade. Às vezes com mais músculo que cérebro, mas não podemos condená-los por omissos.Depois que o Luiz Antôno fez outra JOGADA INDIVIDUAL, Ronaldinho resolveu se juntar à festa. Bateu o pênalti e fez 2 a 0.
Com a vantagem R10 começou a fazer graça e numa dessas fez ótimo passe ao Luiz Antônio que concluiu como gente grande. E eu aqui em casa sem poder gritar de alegria. Chacoalhava no sofá à frente do computador vibrando de orgulho pelo meu Mengão. Orgulho desse moleque que outro dia tinha sido vaiado e estava destruindo no Engenhão.Aí chegou o momento em que ou o Flamengo goleava ou tirava o pé do freio tocando inteligentemente a bola, ou dando bicão mais ao estilo Joel. Escolhemos não fazer nem uma coisa nem outra. Coletivamente não éramos nenhuma maravilha e resolvemos brincar com a bola, fazendo malabarismos e dando toquezinhos de calcanhar. Ultrapassamos o fino limite entre o futebol bem jogado e o futebol rococó. Síndrome de Ronaldinho. É provável que essas frescuras tenham servido de combustível pro time do Olímpia que tem um ótimo técnico cujas mudanças afetaram o jogo do Flamengo.
Acharam uma falta meio marota meio besta, típica da nossa defesa. E acho até que nosso goleiro colocou mal a barreira. Mas era um gol só. O problema é que daí o Joel fez o favor de pôr a pior opção que tinha no banco. Negueba não é opção para segurar a bola, nunca foi. E se você coloca ele do lado do Galhardo com cartão amarelo está pedindo para ter problemas. Não acho que fosse necessário pôr um zagueiro, algo que não seria má idéia, mas até o Deivid teria melhor resultado, segura melhor a bola, ajudaria o Love que já tinha sentido a perna no quarto minuto de jogo. Mas não, por incompetência dos nossos jogadores e do treinador tomamos 3 gols em menos de quinze minutos. E o Olímpia foi para casa com um ponto lutado e eu fui pra cama com meu ponto na cabeça.
Recomendo rever o jogo. Melhor ainda se for com a narração gringa que dá de dez nas transmissões furrecas do Brasil. Flamengo 3 x 3 Olimpia 15 de março de 2012 – Engenhão.
Fui escrevendo esse texto enquanto deixava a raiva passar. Mas fiquei até com vergonha do meu pontinho. Vergonha infinita do Flamengo, mas por outro motivo. Ninho do Urubu? Um ninho devia proteger suas crias, não o contrário! Infelizmente nada melhorou e ainda gastamos energia com o carioca mais medíocre que já vi. Resultado: o jogo de quarta-feira não teve o enredo muito diferente. Sinceramente, se o Paulo Vitor não tivesse feito uma defesa milagrosa no primeiro tempo do primeiro jogo acho que íamos perder do mesmo jeito, achando algum gol pela inspiração do Love ou pelo “par de cojones” do Botinelli. O resto é a costela milionária do Ronaldinho, a prancheta esclerosada do Joel e o marido caga-idéias da Patrícia que por enquanto não tem como mudar.
O lance do segundo gol do Olimpia para mim é a imagem desses dois jogos. Zeballos luta no alto pela bola e cai, se levanta antes dos zagueiros e chuta desequilibrado, e cai. O Felipe faz boa defesa mas a bola fica ali dando bobeira na área. Outra vez ele levanta e manda a bola para as redes do Flamengo. Cair, levantar, cair, levantar. Quem melhor souber cair e levantar mais perto estará de uma vitória. Foi assim que o Olimpia se recuperou do 3 a 0 do primeiro jogo. O Flamengo devia pelo menos tentar lembrar daquele memorável 4-5 na Vila Belmiro.
Só que quem contratou o Natalino pensando na arrancada de 2007 entende menos de futebol do que a África do Sul. Ou então enganou todo mundo e já está prevendo um repeteco de 2005. O Joel só mudou numa coisa: virou um sem vergonha arrogante. Porque qualquer time que toma 6 gols de um adversário devia ter vergonha disso, principalmente se for treinado por um ex-zagueiro retranqueiro como ele. Já se foi a época do bonde-sem-freio e sua irritante invencibilidade. Os times do Joel Santana tem mais vocação para montanha-rusa. Aquele trem sem maquinista, teóricamente divertido, mas que só nos fazem sofrer, entre a ilusão da subida, a aceleração histérica da caída que precede o gozo de virgem imediato à subida, para no fim das contas voltar a descer desesperadamente ao mesmo lugar que estávamos. O melhor das montanhas-rusas é a hora em que acabam. Estou torcendo para que seja logo.
Pena que essa brincadeira pode nos custar a vida na Libertadores.Só nos resta fazer as malditas e inglórias contas para classificação. O que temos que admitir é que somos fregueses do Olímpia e fregueses do Pelusso. Humildade não faz mal a ninguém e não adianta pendurar no pescoço um out-door com a frase “Flamengo é Flamengo” que isso não ganha jogo. Tem uma coisa que o futebol brasileiro devia aprender. Só com trabalho, trabalho e mais trabalho (e tome tempo) seríamos capazes de fazer um time vencedor, uma geração espetacular com um futebol que tem aquele click que nos enche os olhos de orgulho. Infelizmente vejo que estamos indo no caminho oposto: pagando um milhão de reais a um cara que não joga, desmontando dia-a-dia o projeto anterior, adotando uns jogadores e prejudicando outros, voltando a treinar na Gávea, passando mais um mês sem patrocinado master, falando todo tipo de besteiras na imprensa, e tome besteiras, e cada dia mais…é bobagem que não tem fim…
Mas ainda bem que está chegando o Adriano. Com ele tudo vai mudar, nem vamos mais precisar de cartilha de boas maneiras. Com o Imperador vamos botar o pé na estrada. Com o Pé inchado de cachaça da Vila Cruzeiro o Flamengo vai finalmente trocar o disco.
PS: Atenção, esse vídeo contém uma música tão ruim quanto a atual fase do Flamengo.
PS2. Ontem voltei a jogar uma pelada com o Esfínter de Milanos. Nunca joguei tão mal. Numa jogada estava de costas para o gol, não dominei a bola e dei de presente o contra-ataque ao adversário que marcou o gol. Acho que perdemos outra vez por 6-1, talvez mais. A diferença entre eu e o R10 é que fico puto quando perco e não recebo um milhão por mês.
PS3: Devia ter ficado em casa vendo o jogaço Schalke 2 – 4 Athletic de Bilbao.







